A cada dia cresce, claramente, o grau de consciência do povo em relação à nossa verdadeira história, já que a oficial é um amontoado de inverdades e distorções vantajosas para ''elites'' (?) devidamente encasteladas em rendosas mordomias legislativas, judiciárias e executivas e nos edênicos penduricalhos paraestatais. Por um lado, é uma absurda imoral concentração de dinheiro e propriedades privadas, por outro, uma protegendo a outra.
No fundo, os dois lados da medalha de chumbo da exclusão, que é a moeda corrente do País, desde sua malfadada colonização, chaga secular e imortal. O povo acorda e procura se instruir, se iluminar, mesmo frente à barreira quase invencível desta dolorosa e insuportável realidade escolar, manipulada descaradamente para mediocrizar, desconcientizar nosso povo, em especial os pobres.
É um país onde o ensino superior gratuito pertence às classes superiores e os despossuídos acorrem ao ensino privado, que é caro por natureza. Agora, este povo percebe por que esses privilégios têm endereço certo, quando, atônito, lê pela vez primeira, os holerites que sempre lhe foram sonegados, e que alimentam as mordomias dos próximos ao poder. Suas lições têm sido duras, mas finalmente ele constata alguns dos porquês das injustiças cronificadas e ossificadas, e entende um outro triste lado, o da cegueira da justiça.
É difícil explicar, realmente, ao homem comum do povo a diferença entre o que é legal e o que é justo. Sua escolaridade foi preparada para lhe negar essas luzes e para temer os poderes, ao invés de exigi-los. É uma perversidade pecaminosa. Nossa justiça, que frequentemente merece a forma minúscula, é cega no que lhe tange no sentido de nos assegurar uma democracia de verdade.
Afirmo: o desempenho digno da justiça não vem dos seus ricos e intocáveis holerites, férias, aposentadorias precoces, pensões, mas sim das consequências sociais, culturais e políticas de sua presença. Ou de sua ausência. Ou de sua conivência. Ou de sua insensibilidade e morosidade. Ou pior, de sua desimportância. Onde não há justiça, medra a injustiça, a desordem social, o negror da arbitrariedade impune, como esta que nos cerca. E, como é leniente, morosa para com os ricos.
Gostei do Lula: não se procura droga no morro, posto que ele nasce e vem das coberturas privilegiadas, dos condomínios exclusivos e com carros de vidros cinza, em lugares onde quem chega, puxa a escada. Intocáveis, bem guardados.
Penso o Fernandinho Beira-mar como um motoboy de gente rica e protegida por quem sabe como usar o poder, classe influente, que conhece as rotas da impunidade, e que tão tragicamente passa muito por perto daquelas que deveriam nos trazer a segurança, a justiça, a punição dos ilícitos que nos prostituem. A impunidade mora nos picos intocáveis dos morros do poder, trágico papel carbono dos morros das pobrezas beira-mares. São irmãos siameses!
LINCOLN BRASIL E SILVA é médico em Londrina

mockup