ESPAÇO ABERTO - 'Morreu na contramão atrapalhando o tráfego?'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de junho de 2004
Julio César Campano Floriano 
A arma mais eficaz daqueles que procuram dar outros rumos à história das sociedades, é a própria história de suas lutas. Obscurecer o verdadeiro significado dos fatos é condenar ao fracasso todo próximo passo a ser dado na luta que se propõe.
Em junho de 2003, as manifestações estudantis contra o aumento da tarifa do transporte coletivo (polemicamente autorizada e defendida pela Prefeitura de Londrina) colocaram-se como um fato importante na história de Londrina, culminando na morte de um manifestante além de outras consequências.
Os verdadeiros responsáveis até hoje não foram punidos. A negligência bestial da Polícia Militar e da CMTU - em liberar os ônibus em meio aos manifestantes quando visivelmente não havia segurança para tal ato - também não foi apurada efetivamente. A tarifa continuou a mesma (com exceção de que alguém saiu ganhando com isso). Personalidades, partidos e grupos políticos não deixaram de aproveitar os fatos para preparar o retorno em momentos mais oportunos.
Em determinados momentos da história, certos discursos emergem para silenciar fatos. O discurso que ficou desde junho de 2003 foi o daremos o troco nas urnas. E o fato silenciado? O fato é que o ocorrido é apenas o reflexo de um problema maior e mais grave: a complacência dos políticos com os mecanismos das desigualdades sócioeconômicas que imperam no modelo social vigente. Mas se a história é uma arma na luta, é importante lembrar que quando a política se limita aos mecanismos institucionais não resolve o problema. Pelo contrário, silencia-o. E a história (novamente) é a prova disso.
Nesses últimos dias é mister relembrar que Anderson Amaurílio foi morto há mais de um ano. Malgrado a tentativa de silenciar a história, ela não cala: o valor de uma vida pode ser compensado pelo troco nas urnas? Qual o preço da vida daqueles que lutam por uma sociedade onde o bem-estar da população tenha mais valor que o equilíbrio de uma planilha de custos? Pensar que política é dar o troco nas urnas é o mesmo que determinar o valor da vida de Anderson em R$ 1,35 para uns e R$ 1,60 para outros.
A luta política não é e não pode se restringir aos mecanismos de voto, sob pena do seu esvaziamento e do silenciamento de sua história. Negar a política como ela é e reclamar para si a história como instrumento efetivo de mudança e politização da sociedade, é dizer aos verdadeiros responsáveis pela morte de Anderson que ele não morreu na contramão atrapalhando o trafégo. Políticos de verdade não pulam a catraca da história.
JULIO CESAR CAMPANO FLORIANO é sociólogo e pós-graduando em Economia do Trabalho e Sindicalismo pelo Instituto de Economia da Unicamp


