ESPAÇO ABERTO - Moral e política
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de novembro de 2003
Frei Betto 
Muito se discute, ao longo dos tempos, a ligação entre moral e política. Há quem defenda que a política deve ser autônoma ou independente em relação à moral. Tal proposta é atribuída ao famoso politicólogo italiano Maquiavel (1469-1527). Daí por que se chama de maquiavélica toda atitude política que ignora os preceitos morais. De fato, foi Maquiavel quem sugeriu aos poderosos o princípio de que ''o fim justifica os meios''. Em seu famoso livro, O Príncipe, ele aconselha: ''... e nas ações de todos os homens, e máxime dos príncipes, quando não há indicação à qual apelar, se olha o fim. Faça, pois, o príncipe por vencer e defender o Estado: os meios serão sempre considerados honrosos e por todos louvados'' .
O grande desafio da política libertadora é basear-se numa ética libertadora. Não se pode construir o homem e a mulher novos usando métodos velhos. Quando se lança mão de irregularidades, de difamações, de trambiques, para ganhar uma eleição sindical ou partidária, de fato se está perpetuando a velha sociedade opressora em nome de ideais libertários. Isso é o que o Evangelho denuncia como colocar vinho novo em odres velhos.
Em outubro de 1990, na 2 Plenária Nacional de Movimentos Populares, em São Bernardo do Campo (SP), um grupo de companheiros falsificou cartões de votação para tentar ganhar uma eleição. Foi derrotado. O grave, porém, era achar que a libertação poderia avançar utilizando meios que são próprios daqueles que oprimem e promovem a injustiça.
A ética enraiza-se no coração humano. Não é só uma questão de comportamento político. Ela só adquire força quando se encarna na vivência pessoal. O opressor age movido por interesses; o libertador, por princípios. Assim, jamais um militante da justiça pode aceitar desviar verbas, fraudar processos eleitorais, mentir para o povo ou fazer uso do que é coletivo para benefício pessoal.
''Aquele que é fiel nas pequenas coisas - adverte Jesus - é também fiel nas grandes, e aquele que é injusto no pouco, também o é no muito'' (Lucas 16, 10-12)
Tais princípios devem nos servir, hoje, para avaliar as implicações éticas das práticas políticas, sobretudo considerando que a política é o terreno das negociações, das alianças, dos acordos. E a negação dessa realidade pode, facilmente, abrir caminho ao fundamentalismo (religioso) ou ao sectarismo (ideológico), instaurando um purismo ou uma ortodoxia que tantas vidas sacrificou pelo fio da espada ou pelos pelotões de fuzilamento do socialismo.
É fácil ter razão quando não se senta à mesa de negociação. Difícil é resguardar os princípios e abraçar a tolerância, tendo em vista objetivos libertadores através de meios eticamente inquestonáveis.
FREI BETTO é escritor e assessor da Presidência da República para o Fome Zero


