ESPAÇO ABERTO - Mídia, violência e a responsabilidade social
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de setembro de 2003
Francisca Vergínio Soares 
A retirada do ar do programa do Gugu no domingo posterior à exibição da entrevista montada com os supostos integrantes do PCC gerou falas e interpretações diversas, sendo uma delas a de que a censura, coisa do tempo da ditadura, não respeitou os direitos constitucionais. Se for pensar que a televisão é uma concessão pública, então a lógica seria que o conteúdo transmitido por ela também deveria ser de interesse público. Ou seja, neste raciocínio ela deveria ser obrigada a exibir uma cota mínima de programas educativos no intuito de diminuir os efeitos danosos causados pela disputa na guerra pela audiência.
Num momento em que se cobra das empresas responsabilidade social é notório o desconhecimento de certos setores da mídia, neste caso, a televisão, deste conceito que tem sido vivenciado por algumas empresas preocupadas com os rumos que nossa sociedade tem tomado no que diz respeito ao aumento da criminalidade. A punição imputada ao apresentador deve ser vista como responsabilidade social por parte dos agentes do Estado - uma empresa - diante de um fato que deixou a todos indistintamente indignados e perplexos com a ousadia da emissora. O sociólogo francês Émile Durkheim diria que houve uma ofensa à consciência coletiva, daí que não parece plausível falar em censura, mas numa satisfação aos cidadãos comuns que já estão calejados de tanta impunidade neste país.
O Congresso exigiu ''punição exemplar''. Procuradores da República decidiram mover ação contra o apresentador, pediram indenização de R$ 1,5 milhão e suspensão por 30 dias do programa. Talvez um exagero um período tão longo, mas ventilou-se essa possibilidade. A Promotoria de Justiça do Consumidor, de São Paulo, instaurou inquérito civil para saber até onde vai a responsabilidade de Gugu e de sua emissora. O paradoxo desta situação toda é que este apresentador já havia participado de duas gravações para a comemoração dos 50 anos da Petrobrás onde falaria sobre responsabilidade social; óbvio que houve rompimento do acordo: como ele poderia falar de responsabilidade social se sua empresa não a pratica?
Enfim, o episódio Gugu-PCC enseja uma reflexão que vai além de uma entrevista falsificada. A mídia, num âmbito geral, parece ainda não ter dado conta de seu papel de formadora de opinião, até agora ela tem se restringido à informação e ao divertimento ou entretenimento e com isso enaltecendo a violência criminal. Na tentativa de informar, muitas vezes - senão na maioria delas - ela distorce a realidade confundindo ficção e realidade. Sobre isso o filósofo Adauto Novaes alertou que ''temos que aprender a ver de novo e mobilizar outros mecanismos para entender e saber o sentido real que a imagem transmitida tem''. Já está mais do que na hora da mídia deixar de explorar a miséria, o sexo banal, o crime, a violência, a dor do outro e passar a atuar de um modo responsável e ético.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga e professora da Universidade Estadual de Londrina e da Uninorte/Londrina


