ESPAÇO ABERTO - Meu arco íris é a tua liberdade de ser feliz

A febre fundamentalista trará o que na sequência? A obrigação do uso de burca? Cinto de castidade?

João dos Santos Gomes Filho
João dos Santos Gomes Filho

 

ESPAÇO ABERTO - Meu arco íris é a tua liberdade de ser feliz
Roberto Custódio
 



De novo a turma do pecado acima de Deus volta a incomodar e, na medida em que razão e conhecimento não proliferam na ausência de luz, o escuro do armário de onde eles se recusam a sair segue alimentando a irracionalidade da turba, na distopia ignorante das mentiras com que buscam alterar a realidade.


Falo dos ataques que os habitantes de dunquerque estão fazendo ao alcaide de Londrina, Marcelo Belinati, por sua iniciativa grandiosa de encaminhar à Câmara Municipal projeto de lei que cria o Conselho LGBTQIA em nossa comarca.


Pensava não tornar essa esgrima, mas Cervantes me obriga sempre que lembro do diálogo eterno entre o cavalheiro e seu escudeiro: "Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça"...


A quem incomoda a criação de um conselho LGBTQIA em Londrina? Bem, se vê que o incômodo é tão feroz que obriga até aos que escrevem por encomenda mentir sobre o entorno da situação feito um todo, criando um universo distópico que, por apartar-se da verdade, só serve para alimentar o mal...


Vamos, por um momento e a título argumentativo, imaginar que não exista, em Londrina, nenhum representante da comunidade LGBTQIA. Ainda assim a criação do Conselho seria de muita valia – senão para que os seus detratores soubessem que, ao sair do armário, não seriam apedrejados por eles próprios, talvez para que a comunidade se mostrasse empática com a orientação sexual alheia.


Respeito não é uma palavra. É uma atitude que demanda tolerância, paz de espírito, bondade e muita, mas muita empatia. Quem não sabe a dor alheia não saberá, nunca, a própria dor – daí o armário em que essa gente se encontra.


Há, aqui, um paradoxo: amedrontados com a liberdade sexual do outro, os detratores de condutas alheias se apressam a buscar motivos que justifiquem a própria incapacidade de ser e deixar ser...


Como não lhes socorre qualquer justificativa social, os cuidadores de condutas alheias fazem uso da régua moral que lhes permite, a um só tempo, ter vidas duplas e apontar a quem lhes aparenta ser diferente...


Pior: fazem isso, não raro, em nome de Deus, buscando um tom fundamentalista para um tema subjetivo que os ameace. Deus não responderá contra os seus filhos, oh ignatos. Deus é amor e perdão – vocês raiva e solidão...


Reitero aqui meus parabéns ao alcaide Marcelo Belinati por sua coragem de dar voz a quem está relegado ao submundo no Brasil, fruto da subvida que lhes reservou a moral e os bons costumes de nossa sociedade escravocrata (de berço) e ególatra (por sua elite econômica) ...


Ademais e como já respondeu o próprio prefeito, os conselhos (todos eles) são meramente consultivos e não deliberativos. Quer isso dizer que cumpre aos conselhos (todos eles) discutir e formar uma pauta de necessidades que as respectivas comunidades, abarcadas pela atuação do gregário, demandam, em ordem a municiar o município de informações que lhe possibilite (aí sim!) desenvolver políticas públicas a facilitar e abraçar a vida em sociedade...


Sim, oh ignata pessoa que julga o próximo feito quem aponta o dedo ao tempo: a comunidade LGBTQIA é merecedora de um lugar ao sol. Não há o que impeça o reconhecimento dos LGBTQIA. São, eles, gente feito a gente – não coloquei como a gente para não lhes dar ideias pecaminosas...


Mas aí vem a tinta de aluguel e, qual pistoleiro barato, mente no papel, buscando agradar o seu patrão (este, via de regra, segue escondido no armário), dizendo que o Conselho LGBTQIA fomentará modificações estruturais cujo escopo realizador não está em sua alçada.


Mentira. O Conselho não altera senão a invisibilidade clandestina a que está relegada a comunidade LGBTQIA, em situação que de cristã não tem nada. Deveras, a orientação sexual do outro não é um atentado contra a sua liberdade de se autoconduzir.


Aliás, as mazelas do outro não deveriam causar o impacto que causam, na medida em que – já disse e repito – não é preciso se deitar com quem quer que seja para respeitar essa pessoa. Basta respeitá-la e pronto!


Outra coisa: vejo escolas que se dizem cristãs, levantando bandeira contra a criação do Conselho. Pelamor! É essa a educação possível? Não seria mais cristão estender a mão? E a ideia de amar ao próximo como a si mesmo? Onde está a empatia de vocês? Presa em algum lugar escuro?


A febre fundamentalista trará o que na sequência? A obrigação do uso de burca? Cinto de castidade?


Estamos no limite de nossa capacidade de errar. Quando o erro vem orientado na ignorância preconceituosa ele já não é um erro. É fruto do mal que se estabelece nas lacunas que o desamor semeou. Há uma fratura exposta em nosso modelo não empático de civilização e ela se identifica por sua condição homofóbica.


Vão ler que a vida melhora. Parabéns prefeito, não diminua a pegada.

Tristes e homofóbicos trópicos!


João dos Santos Gomes Filho é advogado em Londrina

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