É de grande tristeza que já se faz notar em toda a parte a morte do intelectual italiano Norberto Bobbio, no último dia 9 de janeiro, em Turim, na Itália. Boas e pertinentes foram as discussões trazidas pelos professores Godoy e Pavão, neste espaço da Folha, tanto as que versavam sobre o caráter liberal e democrático de Bobbio quanto as que procuravam enaltecer sua independência como homem público de esquerda, socialista à sua maneira, posição esta sempre lúcida, crítica e dando a nós, seus leitores e admiradores, a renovada chance de nos interpelarmos e interrogarmos sobre nossas atividades políticas e intelectuais.
Em Bobbio, entretanto, é o conceito de liberdade que o enriquece e o torna pensador ímpar. Como fenômeno primordial da vida política, a liberdade que nos apresenta Bobbio é positiva e construtiva, uma vez que não se vale apenas de reivindicar o que já está cristalizado em normas, leis e costumes; vale-se, isso sim, de postular o que está ausente, deformado, e portanto a alimentar distorções e injustiças na composição da vida social. É livre o ser humano que, diante de seus iguais, esclarece o que ofusca a vida, o que a torna maculada por mazelas, privilégios sem sentido na vida pública democrática. Nesse sentido, por estar a falar de uma liberdade que postula e agremia os homens, a política que reivindica o ausente é, antes de tudo, socialista, anos-luz dos limites que Bobbio tanto combatera nas hipertrofiadas causalidades do pensamento liberal.
Bobbio fará falta sempre que a questão da liberdade vier ao debate, sempre que as injustiças sociais prevalecerem sobre a noção da dignidade humana. As teorizações políticas de Norberto Bobbio serão ainda mais aclamadas e bem lembradas nos momentos em que a ganância e o aviltar dos direitos humanos ganharem a cena pública em guerras que são feitas em nome da paz, em mortes que se seguem dizendo estar em nome da vida, do bem viver.
Fica aqui, pois, o que Bobbio chamou em um de seus mais belos livros, Elogio da Serenidade, de cautela, que não se pode confundir com medo; de equilíbrio, que não é o mesmo que falta de ousadia. Fica, pois, a lembrança de quem nos ensinou como poucos que a democracia é a conquista de uma longa travessia de diálogos e convencimentos que se fazem na história, no convívio das diferenças que constituem o motor da vida social democrática: a pluralidade humana.
MARCO ANTONIO ROSSI é sociólogo e professor.

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