Dezessete de setembro de dois mil e quatro. As paraolimpíadas se iniciam, porém não nos interessa saber sobre elas. Aqueles que competem não são atletas ''completos'' fisicamente, pois, tristemente, cultuamos o ser que se aproxima da perfeição e ignoramos nossos semelhantes que, por alguns problemas físicos, não podem se equiparar aos demais. Nós os ignoramos tanto, que eles já ganharam medalhas de ouro, ao contrário de muitos outros atletas brasileiros que brilharam na telinha da televisão.
Por que os canais de televisão abertos não fazem a mesma cobertura que foi feita com as Olimpíadas? Será que é porque os brasileiros que lá competem não podem se equiparar fisicamente a alguma estrela brasileira que brilhou em Atenas? São perguntas que precisam urgentemente de resposta. Dizem que é necessária a inclusão de todos na sociedade, mas isso realmente não acontece. Tudo porque só os bons sobrevivem, só os quase perfeitos brilham e os demais são apagados com uma borracha invisível chamada preconceito. E ainda há canais de comunicação que têm a coragem de dizer que estão realmente ajudando a reverter esse quadro desesperador de preconceito.
As Paraolimpíadas estão aí, mas é como se não estivessem. O engraçado é que lá sim encontramos quase todos os verdadeiros heróis brasileiros. Lá há pessoas que enfrentam, além dos problemas físicos, o preconceito e também o descaso. Eles são heróis que não desistem nunca e que lutam dia-a-dia para ver o sol nascer com dignidade e respeito. Mas ainda somos uma espécie muito mesquinha, a tal ponto de descartarmos os ''imperfeitos'' e selecionarmos as quase divindades, louvando-as freneticamente, esquecendo-nos de que todos nós somos imperfeitos, pois a perfeição não pode e nem deve ser uma característica humana.
Os valores pregados na maioria das vezes nunca se concretizam em ações que beneficiam a esfera social. O preconceito reina de uma forma silenciosa, envolvendo delicadamente cada indivíduo, e, fazendo-o pensar que não é preconceituoso. Será que realmente não somos? Ou fomos induzidos a fingir que não somos preconceituosos? Essas perguntas podem ser banais, mas apresentam um pouco de veracidade. A mídia em si prega que não devemos excluir ninguém, independente da classe social, cultura, religião... Mas só conseguimos ver através dos olhos da mídia o que se equipara ao quase que perfeito, excluindo os ''diferentes'', causando discriminação.
Então, será certo que nossos ''falsos'' atletas das paraolimpíadas não recebam o mesmo enfoque que os ''verdadeiros'' atletas receberam? Tem-se a impressão de que devemos ignorá-los. Todavia o que realmente importa é que eles estão lá, em Atenas, não só lutando para tentar quebrar recordes, mas também para demonstrar que eles têm uma maior vontade de quebrar os obstáculos que a vida nos impõe. Eles podem ser considerados verdadeiros heróis e merecem aplausos de todos.

JULIANO SCHIAVO SUSSI é estudante do ensino médio em Americana (SP)

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