ESPAÇO ABERTO - Mentalidade equivocada
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de novembro de 2003
Edson Neme Ruiz 
O aumento da expectativa que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra passou a ter com relação ao governo Lula intensificou a invasão de terras, no Brasil. De janeiro a agosto deste ano, segundo números da Comissão Pastoral da Terra, ocorreram 259 novas ocupações, sendo que 11% delas no Paraná, que foi o terceiro Estado mais invadido depois de Pernambuco e Minas Gerais. Cabe-nos, igualmente, a idêntica e triste posição em volume de conflitos e mortes no campo, em consequência dessas apropriações indevidas.
E enquanto esses fatos acontecem, alguns afirmam que existem no Paraná milícias armadas no campo, patrocinadas pelos ruralistas. Uma inverdade, porque o que existe são casos isolados de o proprietário rural defender-se, o que caracteriza legítima defesa da propriedade quando ele se vê ameaçado ou atacado. Se não há invasão não há confronto.
Disseminou-se no Brasil, em meio às camadas inconscientes e desinformadas, a mentalidade de que o dono de terra é vilão, como se fosse um delito possuir uma propriedade e nela plantar e criar gado e produzir alimento para a mesa dos brasileiros e ainda exportar, trazendo preciosos dólares para o País e gerar empregos. Esse errôneo conceito é que - ressalvadas as exceções - desencoraja os políticos e governantes a encarar com seriedade o problema das invasões, deixando as coisas correrem soltas e o ônus por conta dos proprietários rurais, como se a simples apropriação da propriedade alheia resolvesse, por si só, o problema da acomodação dos sem-terra. Restará saber como irão se acomodar, depois, os que tiveram sua terra e sua fonte de renda subtraídas.
A exploração da agricultura e da pecuária é a mais antiga atividade do homem, desde os primórdios da humanidade e dos quinhentos anos de história do Brasil. Agora expandida, pelo aumento da área cultivada e pelo uso intensivo da tecnologia, a agropecuária brasileira chegou a elevado nível e com tendência de continuar crescendo. É da sabedoria universal que se a atividade do campo vai bem, tudo o mais tenderá a ir bem.
Mas se o problema das famílias acampadas à margem das rodovias e dos colonos sem-terra precisa ser resolvido, não poderá ser à custa do sacrifício dos que hoje labutam no campo. Porque, com as invasões - melhor dizendo, o roubo de suas propriedades - são os atuais produtores rurais que irão se transformar em sem-terra, justamente os que têm tradição e experiência e que, por isso, fazem a atividade render e, assim, enriquecem o Brasil e contribuem para a consolidação da paz social. O mais é desordem e subversão, e o que se deseja é paz no campo, ordem e progresso.
EDSON NEME RUIZ é presidente da Sociedade Rural do Paraná, com sede em Londrina


