No dia em que li neste jornal a declaração da sra. Joelma Aparecida Carvalho, de que o não cumprimento do médico de sua carga horária nos postos causaria superlotação nos hospitais, me lembrei da seguinte história:
''Um professor ateu desafiou seus alunos perguntando se Deus existia e se tinha feito todas as coisas, respondendo os estudantes que sim. Concluiu o professor: se Deus fez todas as coisas, então Deus fez o mal. E considerando-se que nossas ações são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mal. Um estudante então lhe questionou se o frio e a escuridão existiam. Com a resposta positiva do professor, explicou o aluno que na verdade o frio não existia, sendo um termo usado pra definir a ausência de calor, segundo as leis da Física, assim como a escuridão, sendo ausência de luz. Finalizando perguntou ao professor se o mal existia e com sua resposta positiva, justificada pelos roubos, crimes e violência diárias em todas as partes do mundo, o estudante respondeu: - O mal não existe, professor, ou ao menos não existe por si só. O mal é um termo criado para descrever a ausência de Deus nos corações. Não é como a Fé ou o Amor, que existem como a Luz e o Calor ''.
Fiquei pensando como as coisas se invertem. Como médica sei que não é nada contentador estar de plantão num sistema público. O médico ali trabalha por sobrevivência, porque se foi a época em que era profissional liberal. Trabalha num serviço com às vezes, 30 a 40 pessoas esperando pra serem atendidas, devendo esse atendimento ser o mais rápido possível, mesmo sob cansaço mental e físico, sem poder se descompensar, ficar nervoso com tal situação, sob risco de ter seu nome jogado na lama no jornal do dia seguinte, por outra também vítima desse sistema.
Onde muitas vezes você se vê com pacientes graves e não existam vagas em hospitais e UTIs para serem transferidos. Quem ficaria feliz de ver uma população sofrida, que retorna após 6 meses ou mais de espera na fila pra consultar com você, que é especialista, e não fez o exame que você pediu porque não foi liberado por ser caro ou porque o auditor do serviço público achou que ele não era necessário? Ou que não usou o medicamento por não haver na farmácia do posto e ele não ter o dinheiro pra comprar. E que voltou mesmo assim e para ver o que você, como médico, poderia fazer.
Não sei se é pra rir ou chorar da declaração sobre a culpa do médico pela superlotação nos hospitais. Rir de tamanha ignorância ou chorar de tristeza por ver uma profissão tão sublime, tão bonita ser assim massacrada e sucateada. Pior do que dizer que o médico é culpado, seria dizer que o povo é culpado de estar doente e superlotar os hospitais. Comparando o texto da internet com o caos na saúde: este surge onde não existe investimento financeiro por parte do governo, onde não existe prioridade para a saúde. É a falta de tudo isso que o faz existir.
Os hospitais estão superlotados porque as pessoas estão doentes por não se alimentarem bem, por falta de saneamento básico, por não terem dinheiro para comprar medicamentos, por terem seus sistemas imunológicos debilitados por problemas mentais, como depressão e estresse, pela situação em que vivem. Somos tão vítimas e tão impotentes como os pacientes. E ficamos tão esperançosos quanto os pacientes, de que nossos governantes tenham consciência e cumpram o seu papel.
MARIA STELA LESSA PAGANELLI é médica neuropediatra, professora da UEL e promotora de Saúde em Medicina pela Prefeitura de Londrina

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