ESPAÇO ABERTO - Maternidade: função social
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de maio de 2010
Sueli Galhardi 
O surgimento da pílula anticoncepcional há 50 anos e seu uso em massa pelas mulheres foi determinante para a mudança no estilo de vida da população feminina e no padrão de organização familiar. A média de filhos por mulher, que era de 6,3 na década de 1960, passou para 2,1 em 2004. Essa drástica redução da taxa de fecundidade, conjugada às mudanças comportamentais, culturais e econômicas que marcaram as últimas décadas, promoveu uma verdadeira revolução na vida das mulheres com consequências para toda a sociedade. A maternidade como desejo e não como obrigação, reivindicação antiga dos movimentos feministas, tornou-se realidade para muitas mulheres que podem escolher se querem ou não ser mãe, quando e como terão seus filhos.
Esta, porém, não é a realidade de um grande contingente de mulheres. Os dados da evolução da taxa de fecundidade no Brasil revelam significativas variações regionais, geracionais e de classe. As mais pobres, menos escolarizadas, moradoras das áreas rurais, das regiões Norte e Nordeste e as mulheres negras ainda apresentam taxa mais elevada, embora esses grupos tenham sido os que apresentaram queda mais acentuada na última década. A baixa escolaridade, as precárias condições de vida, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde, aos métodos contraceptivos e à orientação restringem a autonomia das mulheres e o controle sobre seu próprio corpo, limitando sua capacidade de escolher quando e como exercer a maternidade.
Apesar das desigualdades, o aumento da escolaridade e da participação no mercado de trabalho redimensionou o universo feminino e rompeu as barreiras do âmbito privado. Contudo, a maternidade continua sendo considerada a principal função feminina. Função que, muitas delas, exercem de forma solitária. A habilidade das mulheres em conciliar trabalho fora de casa, estudo, tarefas domésticas e cuidado com os filhos é frequentemente exaltada como qualidade e característica inata das mulheres. Mas o preço pago por esse acúmulo de tarefas e responsabilidades é alto, traz consequências negativas não só para as mulheres e se reflete em toda a sociedade.
Os movimentos de mulheres há muito tempo insistem na ideia de que a maternidade deve ser reconhecida como função social e, portanto, assumida como responsabilidade a ser compartilhada. Diante das precárias condições de vida e de trabalho de grande parte das mulheres brasileiras, não podemos esperar que essas continuem arcando sozinhas com a importante tarefa de gerar e cuidar das gerações futuras. Reconhecer a função social da maternidade implica em rever as obrigações no âmbito da esfera reprodutiva da vida, a responsabilidade dos homens e do Estado.
Os desafios impostos pela sociedade moderna quanto ao cuidado e à educação das crianças e jovens exigem investimento em políticas, programas e serviços públicos de apoio e proteção à maternidade e à paternidade. Em Londrina, programas como a educação em tempo integral e os restaurantes populares são exemplos de ações importantes para a redução da sobrecarga de trabalho das mulheres, dando-lhes suporte para melhor conciliar trabalho e educação dos filhos e, com isso, melhorando a qualidade de vida, sobretudo das famílias mais pobres.
O trabalho de orientação sobre direitos, de estímulo à educação e ao trabalho e de elevação da autoestima são objetivos do Projeto Viva Mulher, outra experiência desenvolvida pela Prefeitura de Londrina que se orienta pela ideia do empoderamento das mulheres como caminho para a igualdade de gênero. Melhorar as condições de vida e promover a autonomia das mulheres são condições essenciais para que a maternidade, sonho de muitas delas, possa ser exercida de forma plena, responsável e segura.
SUELI GALHARDI é secretária Municipal da Mulher de Londrina


