ESPAÇO ABERTO - Londrina sem planejamento
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de novembro de 2003
Marcelo França dos Anjos 
''(...) Não há planejamento urbano adequado, hoje, em Londrina; não mais se pensa seu futuro. Quem paga esta conta, que chega a longo prazo mas é cara e implacável, é a sociedade como um todo. Faltam critérios para o bom uso do dinheiro público, há degradação urbana e ambiental, menos oportunidades de negócios para a iniciativa privada, menos empregos e moradia para a população, etc. (...)''.
Transcrevo estes trechos, de um artigo escrito em setembro de 2002, na esperança que ajudem a despertar a atenção para uma realidade de nossa cidade. Pelo que tenho acompanhado na imprensa, esta visão é compartilhada por empresários, profissionais liberais e entidades de classe como o Clube de Engenharia e Arquitetura, a ACIL, Sociedade Rural e muitas outras que, com boas intenções, também têm alertado para os problemas decorrentes deste fato.
Infelizmente, a administração municipal não nos brinda com a virtude da humildade, desdenhando destas opiniões, pautadas pela experiência e pelo conhecimento técnico, tomando-as como mero corporativismo e interesse particular. Recusa-se ao diálogo, minimizando os problemas e ridicularizando estes conselhos como ''articulações de motivação política'' que pretendem ''desestabilizar a administração''.
Por tudo isto, não poderiam ser mais adequadas (para não dizer irônicas, ou angustiantes), as frases destacadas pela imprensa recentemente sobre a discussão dos investimentos para a RMC (Região Metropolitana de Curitiba), e da falta destes para a RML (Região Metropolitana de Londrina).
Se todos concordamos com a injustiça da concentração dos recursos estaduais na RMC, devemos salientar que os prefeitos de Curitiba têm contado com a atuação consistente do IPPUC como parceiro desde os anos 60/70, enquanto nossa atual administração tentou extinguir o incipiente, mas primordial IPPUL. Sem atentar para suas verdadeiras atribuições (e mesmo para seu potencial político), se revela que o planejamento do futuro da cidade não é prioridade.
Portanto, urge que se deixe de justificar a falta de obras - leia-se de iniciativa, ação e criatividade - através do apoio nas muletas da ''falta de verbas'' e no mito das ''heranças das administrações passadas''. A meu ver, administrar não se resume a gerenciar burocraticamente recursos públicos ou realizar licitações para os serviços públicos. Deve ser um ato de cidadania, de capacidade empreendedora, de criatividade frente às dificuldades e, enfim, de compromisso com a comunidade que confiou na equipe, elegendo-a para ter como foco não as ''articulações políticas'', mas nossas vidas, aspirações e sonhos, multiplicando o retorno do trabalho de todos. O retorno político não deve ser o objetivo final, mas sim a consequência lógica deste interesse público - o que inclui competência para traçar rumos, e muito diálogo com outros setores.
Finalizando, cabe a todos nós, cidadãos, mudarmos nosso olhar e nossas posturas, já acomodados com o passar de décadas de um discurso de ''cidade pujante'' que sempre esteve ''acima das crises'' por pura graça de Deus. Inspirados por Ele, devemos sim resgatar o potencial de nossa região, mas a partir de nossas atitudes.
Precisamos parar de ''lavar as mãos'' e deixar de ser chamados de ''toupeiras'' ou ''antas'', votando não ''contra fulano'', ''no menos pior'', no que ''rouba (nosso dinheiro) mas faz (segundo seu próprio interesse)'', ou no ''mais bonzinho e honesto'', mas sim em quem apresenta compromissos claros e propostas concretas para com a comunidade. Quem sabe, no futuro, evitaremos o dissabor de pleitearmos por mais verbas sem ao menos ter o trunfo de saber como as bem empregar.
MARCELO FRANÇA DOS ANJOS é arquiteto em Londrina e professor de História da Arquitetura na Unipar em Umuarama


