Em julho faço 39 anos de Londrina. Lembro, como fosse ontem, minha chegada à capital do norte do Paraná. Era inverno (muito frio para mim) e eu contava dezessete anos. Vinha do interior de São Paulo (um caipira de Fernandópolis) para cursar Direito na UEL. Trazia pouca bagagem e muito sonho – acreditava mudar o mundo...

Morei, de início, no pensionato da dona Andradina (na Santos Dumont), uma velhinha gentil e amorosa que escrevia poesias, rimando amor com pudor. Depois em tantos lugares e em tantas repúblicas que meio que me perco nas lembranças, ainda que ganhe na saudade...

Não mudei o mundo 39 anos depois. Foi Londrina, todavia, quem me mudou. Foram os amigos que fiz ao longo da jornada e, principalmente, o cheiro do amor que cola nossa alma na plenitude do convívio, na brevidade de instantes infinitos que a memória preserva...

Desirée (minha companheira de vida) que conheci ainda nos anos oitenta, na UEL, e que veio a ser a mãe do João Neto e da Isabeau (encantos do meu desencanto), nascidos nos anos noventa. Meus filhos, tanto quanto, aprumaram meu novo rumo, abrindo a porteira da vida para o homem que estou...

Meu primeiro amigo seguiu sendo o grande amigo que fiz por aqui. Conhecemo-nos no campo de futebol da UEL (aquele que está ao lado da piscina externa). Eu passava a bola e ele fazia os gols. Na primeira ocasião em que jogamos juntos o Belô (apelido carinhoso do Dr. Wellington Moreira, mago dos corações e tutor das mentes) guardou a deusa branca por três vezes. Sorriu feito criança que ganha o doce que mais gosta, pelo gosto de cada um dos gols marcados. Desconfio que o Belô lembra deles até hoje...

Trinta e nove anos depois soube que ele segue indo às redes e fazendo os gols que eu deixei de imaginar pela cobrança do peso e, principalmente, pelo fato de não aceitar que considerassem o Kaká do São Paulo mais jogador que eu – meio que me divorciei do que mais gostava de fazer porque a cabeça pensava enquanto o corpo padecia...

A vida, noves fora, imita a arte e, enquanto artistas, mitigamos a própria sofrência existindo. Foi assim que passamos dos campos de futebol para os botecos – e isso foi meio que natural...

Londrina alinhava, à época, grandes botecos: Bar do Baiano – ou Arquimedes, numa travessa da Humaitá; o Carlão (Alagoas com Pernambuco); bar do seu João (ao lado do bar do Carlão), onde o querido Alberto de Paula Machado deu lume a lenda urbana do estudante de Direito que passou um final de semana em São Paulo e acabou saindo com a Sandra Bréa – foi meio que mágico ver a tantada de marmanjo ouvindo atentamente o relato enquanto a cerveja ativava a imaginação da bela de época beijando Guilherme Paccola (o afortunado)...

Para quem é mais novo e não tem lembrança ou ideia de quem falamos, Sandra Bréa teria sido a Gisele Bündchen dos anos oitenta e Paccola (outro amigo querido) sempre foi e seguiu sendo feio feito a fome, magro feito a vida...

Depois vieram o Valentino e suas extraordinárias lembranças que não morrem. Lá conheci e bebi com Leminski e Angeli. De Leminski ganhei um haikay (‘A vida em um sopro. O mundo em um copo. O copo acima do mundo’), de Angeli uma cerveja para brindarmos sua maior criação (Rê Bordosa). Foi no Valentino que conheci o Marcão, hoje da Rivoli, ontem e sempre do teatro dos sonhos do maestro Theodoro e de tanta gente que, sem partir, ‘viveu em um rabo de foguete’...

Não posso esquecer do Souza (na Mato Grosso) e sua cerveja mais que gelada e de tantos outros que vão do Café Sete (Higienópolis) ao San Remo e seu sukiyaki musicado pela Érica...

Neste interregno de bares e de botecos, de música e poesia (foi na biblioteca da UEL que conheci o bardo de todos os bardos), de futebol (vai Corinthians, vai Londrina – xô porco), de mulheres maravilhosas e de Sandra Bréa, numa manhã azul Nitis Jacon e sua troupe disseram presente – e assim o teatro fluiu dos palcos para mim e me fez ainda mais feliz e mambembe...

Tudo era mágico, pueril, desafiador, progressista, transgressor, lúdico, lisérgico e, principalmente, humano – errávamos e o ocaso redimia nossos desacertos, estabelecendo novos prumos e novas hipóteses pueris de ser; éramos felizes e não sabíamos...

O mundo retratado em uma sala e pelas ‘mãos de Eurídice’, pelos ‘cafezais’, pela apneia de um sono interrompido que se pronunciou em um ‘coito mágico’, encenado ‘além das copas de muitas árvores’ que assombravam o calçadão – tudo assentado em um ‘ouro verde’ de sensações...

A magia, posso dizer, eu a conheci em Londrina nos anos oitenta e noventa. Convivi com ela até o início do século XXI e, hoje, quando a procuro, há sempre uma resposta de concreto a represar o doce que a vida já não produz – envelheci, é fato, mas Londrina envelheceu mais depressa e tristemente do que eu...

Já não há muitos dos lugares que recordo, das pessoas que descobri, dos sonhos que vivi e, por estes motivos, sigo gris em um mundo colorido, em um vasto multiverso que já não se basta no resgate do que passou...

Penso em ontem e entristeço pelo que vivo hoje. Pelo que meus filhos não viverão amanhã e, principalmente, pelo que fui sem ter percebido que já não sou...

Não é o tempo quem machuca e sim a maneira como enfrentamos as feridas e solapamos as lembranças.

Londrina eu sigo te amando. Você ainda me quer? É essa a pergunta e são estes os motivos. E a vida, o que é? A vida é a herdeira de nossas atitudes.

Obrigado Londrina – saudade pai, você também amou essa terra.

João dos Santos Gomes Filho, advogado

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