Com relação às últimas polêmicas envolvendo Londrina, creio ser importante fazer uma reflexão para contribuirmos com o debate. Nossa cidade ultrapassou a barreira dos 500 mil habitantes. As benesses e problemas serão cada vez mais exponenciais. Já vivemos dia a dia grandes congestionamentos, principalmente nos horários de pico. Uma malha viária em constante crescimento e resolução. A flexibilidade nos horários é fundamental. A polêmica em torno do funcionamento comercial deveria ser pensada de forma simples tendo em vista a existência de todas as normas reguladoras do Ministério do Trabalho. Uma cidade deste porte já não suporta estas restrições de horário, a flexibilidade contribuirá com certeza na melhoria do fluxo no trânsito e nos deslocamentos diários.
Com relação à muralha estabelecida, cerceando a limitação para instalação de supermercados e grandes lojas de materiais de construção. Independentemente da lei ambas devem apresentar um Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), conforme a lei vigente, além do parecer do Conselho Municipal da Cidade (CMC) para se estabelecer. Vários outros empreendimentos impactantes estão sendo edificados como shoppings, mercados, grandes lojas e grandes empreendimentos comerciais, à margem dessa lei desigual. Portanto, não vemos sentido na restrição de apenas dois segmentos comerciais. Fica claro a intenção da Lei da Muralha na reserva de mercado para poucos. Se de fato vivemos num sistema capitalista, toda concorrência é bem-vinda para o bem do consumidor.
Com relação ao estado de abandono e vandalismo de nossas áreas públicas. Infelizmente, nossa sociedade colhe os frutos de nossas escolhas. Vivenciamos o descaso e abandono de décadas de administração pública. Ainda estamos longe de um patamar ideal de desenvolvimento educacional, cultural e familiar. A parcela da população excluída e marginalizada, ou sofrida pelos percalços da vida, será sempre maior tanto quanto não compreendermos as razões de sua existência. Os espaços públicos devem ser apropriados pelos que a utilizam. Devem ter a identidade, a proximidade e fazer parte de seu patrimônio. Somente desta maneira estes espaços serão mantidos, conservados e vigiados. Quando não for possível a vigilância dos moradores próximos, o poder público deverá estar sempre presente. Cabe à administração pública a fiscalização, uso disciplinado, repressão ao vandalismo, coibição ao tráfico de drogas e a segurança para o bem-estar da coletividade.
O espaço público sempre deveria ser de acesso livre, democrático, para toda a camada social da população, sem cerceamento da livre utilização, manifestação e apropriação. Se o uso é marginal, é o reflexo da nossa sociedade, infelizmente. Temos que ter contato com a realidade que nos cerca. Estas áreas são espaços para este contato. A sociedade, com medo, já busca o isolamento e o enclausuramento em guetos e condomínios de toda natureza, distanciando as novas gerações sobre o que ocorre em sua volta. Esta falta de sensibilidade e convívio gera a incompreensão, a intolerância e insensibilidade para com os outros seres humanos marginalizados.
Recentemente, meu filho de 19 anos de idade e seu amigo se aproximaram de um ''mendigo'', que dormia em um espaço público. Sensibilizaram-se com a condição desumana e resolveram ajudar o senhor de 70 anos. Forneceram alimentação, roupas, dinheiro e uma passagem de ônibus para voltar a sua cidade dos sonhos para tentar recomeçar sua vida perdida. Essa atitude nos emocionou, encheu de orgulho e admiração. Senti que tínhamos criado um cidadão sensível à vida, ao contrário de outros jovens incendiários. Isto nos mostra que esse é o caminho e temos que praticar a compreensão e a ajuda ao próximo, sempre. Não devemos viver em redomas de vidro, insensíveis, vendo a miséria na televisão e não ajudando quem está na nossa frente. Os espaços públicos são testemunha e nos ajudam a enxergar e ter contato com as mazelas de nossa própria sociedade, infelizmente.

EDUARDO SUZUKI é arquiteto em Londrina


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