Tenho acompanhado o debate suscitado pelo professor Aguinaldo Pavão, assim como seu posicionamento a respeito da conciliação entre a bondade de Deus e a catástrofe tsunami. As reações dos leitores e a provocação do professor lembram o que disse o filósofo francês Marion: ''O que me maravilha não é a dificuldade de falar de Deus, mas, a nossa dificuldade de parar de falar d'Ele''. Parece-me que o ''coração inquieto'' pela verdade de Agostinho continua com boa saúde e não enfartou com o Iluminismo.
Os estudos recentes da Idade Média têm revelado de maneira insofismável suas ''Luzes'', basta folhear um pouco os trabalhos do agnóstico Le Goff ou da católica Régine Pérnoud. Quanto aos nossos irmãos asiáticos, creio que, do ponto de vista teórico, estão menos preocupados do que nós: os islâmicos ensinam o fatalismo e os budistas o mirvana.
Foi o judeu-cristianismo, embasado no Logos grego que criou uma filosofia e uma teologia, e usaram a razão criando um clima de diálogo entre a criatura e o mistério do Criador. Esta razão dialógica incubou a própria democracia ocidental, e criou uma doutrina sobre a dignidade da pessoa. Razão humana não coincide com medidas matemáticas, mas abertura para o ser, para pensar, para pesar a realidade e não simplesmente desmontá-la como brinquedo.
Devemos fazer uma distinção entre o mal físico e o mal moral. Quanto ao mal físico somos uma espécie animal como as outras e sofremos catástrofes, pestes, doenças. A razão e a tecnologia têm nos ajudado muito a diminuir nossa vulnerabilidade neste campo. Apesar disso, o sofrer humano é radicalmente diferente dos outros animais porque conhecemos nossa finitude, desejamos o infinito e nos comovemos com o sofrimento alheio. O Evangelho nos mostra o tempo todo um Deus-Homem todo voltado para ajudar o sofredor. Esta rede mundial de solidariedade é fruto de uma cultura cristã de 2 mil anos. Ao contrário de outras religiões orientais, o mal moral é dramático para o cristianismo porque ele não é dualista.
É de se notar que o grego é trágico, o cristão é dramático porque crê na força do bem. Para nós não existe o mal absoluto. Neste curto espaço tentarei seguir os passos de Agostinho para quem o mal é ''privação do bem'', algo que deveria estar e não está. Por isso, o mal jamais é algo autônomo com uma consistência ontológica própria. Nós vamos ao encontro da realidade com uma hipótese positiva do bem, justamente por existir um Primeiro Princípio que é bom que pode tornar o homem bom.
Parece algo teórico mas tem consequências práticas formando uma cultura de solidariedade. Em Deus, diz Pesch, ''não se negam senão negações'', e Tomás de Aquino diz: ''Se o intelecto humano não conhece algo positivo não poderia negar nada,'' e o agnosticismo é uma demissão da inteligência. Neste ponto, a práxis cristã é abraçar o sofredor e cuidar como fez Jesus Cristo. Pensar o problema com a razão até onde é possível e calar-se humildemente diante do indizível.
ANTÔNIO FIORI é psicólogo e pertence à Paróquia Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos em Londrina

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