Se fosse coisa boa, não se chamaria jogo de azar. Poucos levam sorte nos jogos aonde entra o bingo e outras modalidades subterrâneas de apostas. E mesmo que se diga que os jogos têm seu lado social, os grandes beneficiados, acabam sempre sendo os empresários do setor. Num romance político escrito por George Orwel, e que leva o título, ''1984'', jogos e apostas são utilizados pelo governo, para alienar a população. Enquanto o cidadão sonha em ficar rico, não tem a tentação de ficar pensando em coisas consideradas perigosas pelo Estado.
A principal denúncia contra as casas de bingo é que elas estariam possibilitando lavagem de dinheiro de procedência ilícita, como o tráfico de drogas por exemplo. Com isso estariam permitindo a proliferação de redes criminosas internacionais no Brasil.
Quando a linguagem nebulosa dos jogos começa a se tornar mais clara, emergem escândalos que acabam tendo consequências. No incidente que envolveu Waldomiro Diniz, ex-assessor imediato do ministro José Dirceu, ficou notório que o caso arranhou o poder central. E mesmo que não se comprove nada contra o ministro, o estrago já foi feito. Diante do inesperado, qualquer explicação que de dê, sempre soa insuficiente diante da opinião pública, que neste momento parece perder a esperança, a mesma que há pouco mais de um ano venceu o medo.
A prática do assessor Waldomiro foi totalmente reprovável. Por outro lado, também é preciso perguntar, a quem mais interessa a exploração do escândalo? Quando investidas de poder, muitas vezes pelo nosso próprio voto, não raras vezes, as pessoas nos surpreendem negativamente. É o risco que se corre pelo exercício da democracia. Representantes de partidos que se encontram hoje na oposição ao governo, se apressaram em jogar as primeiras pedras. Uma prática, diga-se de passagem, que ajuda a esconder histórias não menos cabeludas, que em outros momentos, atingiram partidos que sobreviveram e continuam hoje disputando o jogo do poder.
Com a lucidez que lhe é peculiar, Fábio Konder Comparato, 67, jurista e professor titular da Faculdade de Direito da USP, sugere que a sociedade se organize a ponto de produzir um contrapoder. Uma organização civil, liderada por organizações não-governamentais que atue em determinadas situações, como essa que se vê agora, acima dos próprios partidos. Em texto publicado pela Folha de S.Paulo em 22 de fevereiro, Comparato destaca: ''A ruína moral que se abateu sobre o governo Lula e o Partido dos Trabalhadores, abalando sobretudo o coração da juventude, não nos deve conduzir ao abismo da indiferença e do ceticismo. O que está em jogo é o bem comum de todos nós, e não apenas a reputação dos governantes e partidos. Importa, pois, antes de tudo, tirar do episódio a lição necessária, e saber introduzir, na prática e nas instituições políticas, as mudanças indispensáveis que o bom-senso aconselha''.
TARCÍSIO VANDERLINDE é professor da Unioeste no campus de Marechal Cândido Rondon

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