A farsa do depoimento de dois supostos membros do PCC, na tevê, escandalizou a nação, como se quadros semelhantes, apenas alterados em suas variações, não fossem rotina na televisão brasileira. Porque o que as telas têm mostrado em grande dose, todos os dias, é violência explícita, real e virtual, incluindo conversas de bandidos e suas táticas veja-se os filmes e mesmo as novelas tão iguais ao que disseram os dois personagens da teatralização encenada no programa do Gugu.
A realidade e a simbolização do banditismo entram lares adentro, mas os piores programas são os noticiosos específicos, que todos os canais exploram e que são enriquecidos pelo glamour da imagem e pelos ingredientes adicionados pelo apresentador. O meio-dia e o começo da noite são os horários de maior difusão de todo gênero de violência. O escancaramento dos dramas humanos é a matéria-prima.
E tudo com larga audiência. Esses programas, se imaginam prestar serviços, acabam por robustecer a atmosfera da violência e, por isso, causam um grande mal. Quanto mais as tragédias e delitos são divulgados, mais tendem a acontecer, porque tudo aquilo que é agitado redesperta e se potencializa.
Se o objetivo sincero é ajudar a solucionar os problemas da violência, há caminhos mais educativos. Quem assiste também é responsável, pois engorda a audiência e faz manter no ar esses programas de conteúdo tão sinistro.
Soa hipócrita essa reação de agora, com o caso dos dois personagens da entrevista, porque atitude idêntica deve ser tomada com tudo o mais de violento que a mídia eletrônica mostra como espetáculo. Aí se inclui também a mídia impressa sensacionalista.
O argumento de que o telespectador vê e ouve por que quer e tem a liberdade de acionar o botão de desligar, não tem consistência, porque as crianças não têm esse poder de discernimento e, no grupo familiar, um desliga e o outro religa, e assim todos se envolvem. A magia da imagem em movimento exposta na tela multicolorida e requintada com closes, detalhes e comentários, é surpreendente.
Defender a censura, quem se atreve? Não faltarão os arautos da livre manifestação, a levantar seus estandartes e alertar para os perigos de um controle sobre essas liberdades. Ao defender o ''direito'' à difusão da palavra e da imagem, ferem o direito daqueles que não querem ver e não conseguem livrar-se, nem livrar suas crianças.
Se tais veículos não são os inventores das tragédias esta a justificativa em que se escudam também é verdade que não precisam divulgá-las com tanto apetite. Há que impor limites, porque a maioria da sociedade está de acordo com uma tal atitude, sem medo de que isso possa ser qualificado de cerceamento da liberdade. Porque essa liberdade está muito próxima da licenciosidade.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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