ESPAÇO ABERTO - Lembrar de Arafat
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de novembro de 2004
Luiz Carlos Ferraz Manini 
Na semana passada, o mundo presenciou a morte do líder palestino Yasser Arafat, grande nome no combate ao expansionismo judeu de Israel. Seu falecimento traz à tona uma série de discussões sobre o futuro da paz no Oriente Médio, se é que tal possibilidade existe. Talvez como disse Arnaldo Jabor, em entrevista na Rede Globo, o melhor seria cercar toda a área e transformar a Intifada em um parque temático. Dessa forma, passariam os turistas e diriam: ''Olha, lá vão os palestinos'', ou ''Olha filhinha, dá tchau pro homem-bomba'', ou ainda ''Papai, posso pedir um autógrafo 'praquele' soldado israelense?''.
O mundo acostumou-se a vivenciar situações extremas, nas quais o humanitarismo e os direitos do homem são deixados de lado em nome dos lucros e da disputa pela posse. O que realmente interessa, neste contexto de desenvolvimento do capitalismo selvagem, não é o entesouramento do dinheiro ou a expansão dos negócios; a discussão situa-se na esfera do poder. Há os que mandam e os que resistem, num jogo de farsas onde alguns acreditam que têm a obrigação de serem respeitados, enquanto que os demais fingem que toleram este mando, subvertendo a ordem com ações mais ou menos explícitas. Tal é o caso do terrorismo, que assombrou e ainda vaga pelo mundo, em especial na Europa e Oriente Médio. Cansados de obedecer a padrões os quais não condizem com sua realidade, certos indivíduos lotam carros e caminhões com explosivos, quando não o fazem em seu próprio corpo, e atiram-se em direção aos símbolos da opressão. Eric Hobsbawn diz que, em épocas de convulsão social, nada melhor a destruir e tomar do que um símbolo. A Tomada da Bastilha em 1789, Hiroshima e Nagasaki em 1945, os atletas israelenses em 1972, o World Trade Center em 2001, Fallujah este ano, são formas expressivas do como a sociedade se debate com seus símbolos, chorando sua destruição por isto trazer à baila uma necessidade de se repensar a realidade ao redor.
A morte de Arafat carrega estas implicações: do terrorista ao negociador, para voltar a ser terrorista, o líder palestino lutou junto a um povo que está sofrendo o mesmo genocídio que seus adversários sofreram no passado. Yasser Arafat era um símbolo, uma efígie contra a opressão e pela libertação, e sua morte irá trazer consequências nefastas para a região em destaque. As negociações de paz terão menor espaço, a Palestina tende a se diluir enquanto território e seu povo terá infelizmente que procurar outro espaço para habitar, já que o neonazismo de Sharon, que se traveste sob a pele de defensor dos interesses sionistas, nada mais quer que o poder, como uma remissão dos pecados praticados contra o povo judeu. Gostaria de rememorar um curioso aspecto sobre estas chamadas negociações de paz, e de como isso pode soar estranho aos ouvidos: Yitzhak Rabin e Arafat, no Oriente Médio, ganharam o Prêmio Nobel da Paz, mesmo tendo sido, no passado, conhecidos terroristas. Já Gandhi, que lutou pela libertação da Índia através do pacifismo, nunca foi laureado com tal honra.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


