ESPAÇO ABERTO - Lembranças de José Richa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de dezembro de 2003
Léo de Almeida Neves 
José Richa nos legou muitas lembranças de seu espírito público, honestidade pessoal e lhaneza de trato.
Guardo bem nítida a reminiscência do morador da Casa do Estudante, do presidente da União Paranaense dos Estudantes (UPE) e do jovem militante nas fileiras do Partido Democrata Cristão (PDC), liderado no Paraná pelo ex-governador Ney Braga.
Nos momentos decisivos da história nacional, José Richa não se omitiu e tomou as atitudes que sua consciência apontava como o melhor caminho para a democracia.
O regime militar estabeleceu regras de exigência de número mínimo de deputados federais e senadores para organização de novos partidos, significando na prática que só poderiam ser criados um do governo e outro da oposição.
Surgiram, assim, a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) de apoio ao Poder Executivo e ao sistema autoritário e MDB (Movimento Democrático Brasileiro) para colocar-se na oposição, dando ao mundo a impressão de que o País vivia em democracia.
José Richa não titubeou e foi dos signatários-fundadores do MDB. Disputou no período mais duro da repressão o pleito de senador, em 1970, não se elegendo, mas se alçando à Prefeitura de Londrina dois anos após e chegando ao Senado Federal em 1976.
Em memorável campanha eleitoral, vitoriou-se em 1982, agora pelo PMDB (ARENA e MDB também foram extintos), para o Palácio Iguaçu, infligindo o primeiro insucesso eleitoral ao governador indireto Ney Braga.
José Richa retornaria novamente ao Senado em 1986, com esmagadora maioria de votos. Ele renunciou ao mandato para concorrer. Como nos embates políticos nem tudo são flores, ele sofreu impactante revés na eleição para governador do Paraná, em 1990. Richa também ajudou a criar o PSDB.
Como ser humano, Richa valorizava as amizades, gostava das coisas simples e nunca se deslumbrou com as glórias ocasionais do poder, que ocupou na altitude das funções parlamentares (Senado e Câmara Federal) e no pináculo dos cargos executivos de prefeito de Londrina e governador do Paraná.
Como homem público ele se revestiu da auréola das virtudes republicanas de caráter, honorabilidade e coragem cívica, empenhando o vigor de sua atuação para resolver problemas da coletividade, com os olhos fitos no desenvolvimento econômico do Estado e da Nação.
Vamos sentir saudades do amigo cordial e bonachão e vão fazer muita falta suas análises e conselhos sobre a conjuntura política e econômica do País. Remanescerá, para sempre, a recordação de uma vida consagrada ao culto da democracia e do bem-estar social do povo brasileiro.
LÉO DE ALMEIDA NEVES é ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do Brasil


