ESPAÇO ABERTO - Lei das cotas
Relva humilde
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de outubro de 2012
Virgílio Tomasetti Junior<br>Santo Cremasco 
Lei das cotas
Em 2012, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o desempenho da escola pública, em nível médio, é 3,4; o da escola particular é 5,7. Ambas são notas baixas, porém a escola particular consegue resultado 70% superior à pública. Contra notas não há argumentos; o que o governo faz? Nossos governantes sabem que os melhores alunos de escolas particulares vão para as universidades estaduais ou federais, por isso 85%, ou mais, dos melhores trabalhos de pesquisa saem das universidades públicas. Há, portanto, meritocracia, elemento importantíssimo para o desenvolvimento educacional de qualquer país.
Ao obrigar que 50% das vagas das públicas de dinheiro federal sejam ocupadas pelos alunos que conseguem 3,4 em vez de 5,7 nas provas, o governo reconhece que provoca o ingresso de alunos intelectualmente menos capazes em suas instituições de ensino, compromete o nível dos trabalhos, e, pior, o nível das aulas. O conhecido compositor Geraldo Vandré reconhece que hoje há muito mais cordões indecisos marchando nas ruas do que 37 anos atrás, ''mais fome também'', segundo ele. Vandré alega que esta massificação da cultura o tornou mudo nos últimos 35 anos. Concordo com ele. Os intelectuais criticavam os militares alegando que era interessante para os poderosos manter a população burra. E hoje? Pior que antes.
O IME e o ITA ficam livres das cotas. Por quê? Porque estão com o Ministério da Defesa e não com o da Educação, percebem? Quando o assunto é sério, vale a competência. Sei que ideias mais baratas e mais simples serão abandonadas. Por exemplo, o governo poderia favorecer os 20% dos melhores alunos de escola pública com uma espécie de selo que lhes facultaria gratuidade em escolas particulares de sua preferência, obedecendo a suas notas. As particulares trocariam por impostos o ingresso bem-vindo de tais alunos. O que fazer com os outros 80% das escolas públicas? Continuariam como estão, mas tiveram sua chance, não é? Não há injustiça nisso, pois houve disputa entre iguais. A escolha poderia ser acompanhada de comprovação de renda familiar. Sem nenhuma hipocrisia, sabemos que na olimpíada de vida queremos ver o Bolt da Jamaica, queremos ver o Neymar, etc.
VIRGíLIO TOMASETTI JUNIOR é professor em Londrina
Relva humilde
A relva é, provavelmente, o primeiro vegetal que surgiu na face da Terra. Sendo pequena e rasteira, por longo tempo foi considerada insignificante, quase inútil. Mas é sabido que a relva se desenvolve em todos os cantos do planeta. A relva pode ser encontrada no deserto, nas geleiras, nas altas montanhas e nos vales mais profundos.
A relva, um vegetal humilde, dá exemplo edificante aos humanos. O comportamento e a utilidade da relva merecem ser difundidos. Este vegetal às vezes recebe o nome de grama, às vezes de capim, e tem uma conduta que merece ser imitada. A relva rasteira, pisoteada por homens e animais, é trabalhadora persistente, pois embora podada volta a crescer e desenvolver-se. É ajudadora sustentável ao ambiente evitando erosões e deslizamentos de terras, além de liberar oxigênio. É também resistente às fortes chuvas e ao sol inclemente. Ainda é dadivosa ao oferecer flores às abelhas e borboletas e abrigar roedores e outros pequenos animais.
A relva humilde serve de alimento aos animais e aos humanos. Eis que no decorrer das eras imemoriais a relva se desenvolveu, evoluiu e se trornou também trigo, milho, cevada, cana e taquara. A relva acolhe e perfuma a brisa mansa. Tem segredos escondidos que só os poetas e trovadores conhecem. O cheiro da relva molhada pelo orvalho da noite é inspirador. O cancioneiro popular é rico em poesias e canções sobre o tema relva verde. E quando à noite o zumbido dos insetos ecoa pelos campos a relva continua sua faina de crescer em todas as direções. É a modesta relva o único vegetal que não concorre entre si, seus estolões avançam sem rivalidades, trabalham unidos como fazem as abelhas.
A relva humilde é despretensiosa, não tem vaidades, nem espinhos. Quando trigo é suave e delicada, quando cana é resistente e doce. Quem dera a humanidade seguisse os exemplos da relva, grama ou capim. Afinal, a relva é o tipo de sociedade perfeita.
SANTO CREMASCO é advogado em Londrina


