As ruas das principais cidades do Brasil, incluindo Londrina, estão sendo palco de grandes manifestações populares contra a ditadura econômica dos monopólios do transporte coletivo, das rodovias pedagiadas, a corrupção e a PEC-37, os elevados gastos públicos com a Copa do Mundo, o descaso com a educação, a saúde, a habitação popular, etc.
Percebi que, dessa vez, houve um esforço da imprensa para distinguir os manifestantes "pacíficos" dos "violentos". Em outras situações houve a tentativa de criminalizar o movimento popular. É preciso entender que não existe legitimidade "a priori", com um conjunto de regras válido e autoaplicável em qualquer condição política.
Quando o Estado pratica a violência organizada contra o povo, este tem o direito de usar as armas que tiver para se defender. Se o cidadão não pode expressar qualquer opinião que contrarie o ditador no poder sem correr o risco de ser preso, torturado e morto é legítimo que use um spray de tinta para pichar "abaixo a ditadura". Mas, no Brasil de hoje, não é revolucionário sair pichando a cidade, nem provocar a polícia para incitar sua violência, muito menos depredar o patrimônio público.
De outro lado, as autoridades e a polícia não podem exigir que o movimento fique isolado numa praça, preferencialmente falando baixo, para não perturbar a "ordem". Ocupar as ruas, ocupar o Parlamento (não é a casa do povo?), os palácios de governo, é legítimo, porque são espaços públicos. É óbvio que vai trazer transtornos momentâneos aos motoristas e usuários de transporte coletivo que querem ir para suas casas ou trabalho. Mas as tarifas abusivas e a falta de investimento no transporte público causam um transtorno permanente.
Em 1989 fizemos um movimento contra o aumento abusivo da carteirinha do meio passe em Londrina. Planejamos invadir o Terminal Urbano pacificamente, pegar o ônibus e ir estudar. Mas a polícia foi colocada lá para nos impedir e prender as lideranças. Quando alguns estudantes que estavam na liderança foram arrancados da manifestação à força, pedras voaram da retaguarda em direção aos policiais. A partir daí a violência não pôde mais ser contida e o Terminal foi depredado. De nada adiantou a repressão, o movimento venceu e a carteirinha nunca mais foi cobrada dos estudantes.
Tenho algumas sugestões a dar aos novos manifestantes. Primeiro, não organizem apenas passeatas, organizem também assembleias para discutir a pauta de reivindicações, planejar as ações, eleger uma comissão para cuidar da organização e representá-los numa possível negociação com autoridades, sem tirar da assembleia o poder de decidir os termos do acordo. Segundo, a radicalidade não se conquista com a violência, mas com a amplitude do movimento. Não serão algumas dúzias de militantes "radicais" que vão vencer a polícia e dobrar as autoridades políticas. Dezenas, centenas de milhares, podem conseguir muita coisa. Milhões podem fazer uma revolução! Terceiro, por isso mesmo, todo apoio ao movimento é bem-vindo, inclusive de militantes de partidos políticos, de parlamentares, etc. Partidos não são um mal em si, mas, acreditem, há todo tipo de partido e de militante. A separação entre os manifestantes apartidários e os partidários só facilita a usurpação do monopólio do poder por estes últimos, para garantir seus privilégios e roubar dinheiro público. É mais fácil distinguir o bom do mau político na luta concreta do dia a dia do que na campanha eleitoral.
Por fim, quero parabenizar, sobretudo, os milhares de londrinenses que saíram em passeata pelas ruas na última segunda-feira, que ocuparam o Terminal de ônibus no centro da cidade só para dar o seu recado e sem vandalismo. E agradecer as autoridades locais que não tentaram impedir este legítimo direito político.

SINIVAL OSORIO PITAGUARI
é professor de Economia Política
na Universidade Estadual de Londrina (UEL)

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas).
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup