ESPAÇO ABERTO - Lâmpadas econômicas: sucesso ou fracasso?
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de março de 2010
Christian Steagall-Condé 
Nove anos depois do apagão que afetou o País de norte a sul em 2001, a adoção desastrada e precipitada das chamadas ''lâmpadas fluorescentes compactas'' (FLC) pela população parece dar sinais de esgotamento. Qualquer residência norte-americana de padrão médio possui no mínimo 110 ''bicos de luz'', algo impensável numa casa brasileira típica. Curiosamente, importamos também mais essa bobagem de um país escuro e gelado para adaptarmos em terras ensolaradas, quentes e úmidas, ao invés de contarmos com a arquitetura e o correto dimensionamento das portas e janelas, horário de verão, incluído.
No afogadilho, como parece convir a nossa crônica falta de planejamento, não foram poucas as famílias que, do dia para a noite, se viram na oportunidade em abraçar uma, digamos,''causa ecológica'': trocaram suas onipresentes lâmpadas incandescentes - que estão instaladas de motos a barcos, de aviões a carros, de aparelhos de endoscopia a aeroportos, de estádios de futebol à iluminação de ruas e avenidas - pelas tais fluorescentes, dezenas de vezes mais venenosas.
Da cada vez mais extensa galeria dos desastres nacionais, a falta de chuva que esgotou nossos reservatórios inaugurou em seguida uma corrida comercial às importações, com prateleiras de supermercados abarrotadas com o mais puro lixo chinês, a sucata eletro-eletrônica prontamente recusada em países sérios, que respeitam seus consumidores que lhes pagam e lhes sustentam via impostos, muito mais baixos que os pornográficos impostos pagos pelos cordiais brasileiros.
Milhares de famílias puderam, enfim, jantar em ambientes domésticos, cujas iluminações mais pareciam reviver um filme de Nosferatus, com suas superfícies visíveis em tons esverdeados e alimentos à mesa que mais se pareciam uma autópsia abjeta, sem contar a própria penumbra percebida. Tudo em nome de uma economia coletiva e necessária, enquanto os ricaços nacionais adquiriam a juros baixos, potentes geradores a diesel de 2.000 cavalos, ligados automaticamente em caso de blecautes, artefato que só se via, pasmem, em grandes hospitais.
Tentando corrigir essa verdadeira hecatombe luminotécnica, os fabricantes criaram a ''luz amarela'', nada mais que o próprio tom de nossa estrela central da qual nós, os primatas (denominados ''superiores'') estamos habituados lá se vão um milhão de anos. Porém, ao observar atento às casas, oficinas, escritórios, clínicas, estúdios, ateliês e lojas, apenas para citar os cenários londrinenses, a feiúra inconcebível de uma bela ideia original gerou, no máximo, o canto do cisne: o conforto visual (de resto, necessário à alma e à existência humanas, tanto como são o oxigênio, o alimento, o sono, o trabalho e o lazer) sobrepujando largamente a aparentemente inútil ''necessidade'' em obtermos contas de luz com faturas mais baixas, ''salvando'' a Terra, quais super-heróis anônimos.
Quantos de nós estamos realmente preocupados com os destinos de um pequeno e frágil planeta, do qual dependemos integralmente para sobreviver, brincando de ecologistas superficiais sem avaliarmos os reais impactos de uma decisão aparentemente inocente como optar por formas de iluminação doméstica, por conta da redução das águas que movem turbinas hidrelétricas em uma região sujeita a 260 dias de pleno sol por ano?
Torço pelo dia em que alguma montadora de automóvel, realmente inteligente e inovadora, lance carros com suas pinturas permanentemente fôscas, eliminando para todo o sempre a hoje bizarra necessidade de nos exibirmos nas ruas em automóveis com aspecto sempre ''molhado'', envernizados e espelhados como lacas chinesas. Isso sim, uma herança abjeta do século passado, com trilhões e trilhões de litros de água (potável!) de nossos reservatórios, contêineres de detergente, toneladas de polidores desperdiçados em um verdadeiro trabalho de Sísifo, cuja durabilidade tão efêmera quanto inútil, faz o termo ''carro limpo'' soar como uma contradição em termos, para não afirmarmos arrogância juvenil. Limpo, para quem, cidadão?
CHRISTIAN STEAGALL-CONDÉ é arquiteto em Londrina


