‘‘Cada momento de busca é um momento de encontro’’. ‘‘O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo’’. ‘‘Quando se ama, as coisas fazem ainda mais sentido’’. ‘‘Não deve haver uma razão para se amar – ama-se porque se ama’’. O que há de errado nestas palavras? Nada de errado, apenas sabedoria. Elas estão num dos livros de Paulo Coelho, e um professor da área de letras de Pernambuco, Janilto de Andrade, declara em livro que não se lembra de ‘‘ter lido besteiras semelhantes’’. A impresa lhe deu guarida.
  Os intelectuais nunca aprovaram Paulo Coelho, não tanto pelo que ele escreve mas porque se tornou o autor mais lido da era contemporânea e está ganhando com isto muito dinheiro. Janilto nivela tudo na tábula rasa da literatura, da estética e da poética, mas PC não é literato e nem escritor no sentido clássico, porém mais próximo do obreiro, do missionário, embora talvez nem ele o saiba. E, místico que seja, certamente que não é nenhum iluminado, porque se ocupa de repetir o que os sábios de todas as eras disseram. Importa a difusão que ele faz desses ensinamentos.
  Se os livros de PC são instrumentos de auto-ajuda, que mal há nisso? Há muitas obras de tantos autores que são instrumentos de auto-destruição. Se a auto-ajuda não existisse o mundo desmoronaria, pois o simples ato de andar é auto-ajuda, porque o preguiçoso poderia deitar-se e esperar que o carregassem. Quanto às multidões que lêem Paulo Coelho, elas não devem ser medíocres, mas Janilto insinua que sim, e o faz de maneira irônica e deselegante.
  Se o professor houvesse lido os sábios mestres da antiguidade e o que têm se manifestado nos últimos dois milênios, não precisaria bater pesado no pobre PC. Poderia atacar Sócrates, Krishnamurti, Aristóteles, Confúcio, Francisco de Assis, Ghandi, Yogananda, Exupéry – e mestres ascensos que habitam as elevadas esferas como Buda, Jesus, Miguel, Germain, o mesmo Assis.
  Os milhões e milhões que lêem Paulo Coelho não iriam escarafunchar em obras clássicas daqueles mestres e em escritos sobre seus ensinamentos. PC não é um luminar, se for comparado aos literatos consagrados do Brasil. Sua obra tem outra função. Metade do que está nas estantes de bibliotecas e livrarias, nas cinematecas e viodetecas (aí incluídos games e HQs) tem muito de ‘trash’. Se as pessoas apreciam PC, é porque buscam reavivar a memória remota da própria espiritualidade, que não é necessariamente irmã da intelectualidade. Milhões e milhões que lêem PC se aliviam, e isto deve ser bom. Se as palavras de PC não são todas dele, ele as colhe de sábias fontes.
  O homem não se melhora pela sua cultura e sim pela elevação espiritual, que não quer dizer necessariamente crença religiosa. São ainda os brutos e os cultos que fazem as guerras, não os iluminados. PC não faz mal algum. O mundo precisa de palavras de conforto e de auto-confiança, que levem à reflexão e à elevação da consciência. PC é apenas um obreiro na difusão dessas palavras. Se ele ganha rios de dinheiro, isto não invalida a obra e a missão.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup