Estamos em mais um momento importante da nossa adolescente democracia. Muito se avançou e muito mais tem para se avançar, mas o que mais preocupa nesse momento é a frágil visão de democracia que domina parte da sociedade brasileira. Vem-se assistindo a rompantes de ódio, mentiras e, principalmente, um processo de demonização da oposição política, algo orquestrado, tanto pelos políticos profissionais como pela população. Lutamos mais de 20 anos para romper com o autoritarismo e garantir o direito a confrontar ideias e eleger livremente os nossos governantes, mas parece que o autoritarismo e a intolerância não saíram de dentro de parte da sociedade, que vê no outro um obstáculo a ser exterminado.
Depois de pouco mais de duas décadas de experiência democrática e apesar de todos os problemas, são inegáveis os avanços que nos conduziram a novos patamares de sociabilidade e de bem-estar social. Contudo, uma ameaça ronda o nosso país, a intolerância, o desrespeito e a incapacidade de lidar com a diferença e a oposição. É importante ter clareza que a democracia só pode ser reconhecida como tal, caso consiga conviver com a diversidade e o livre confronto de ideias na busca por um projeto de sociedade que inclua a todos, nomeadamente os que pensam diferente.
É bom lembrar que as democracias mais maduras só foram consolidadas com o respeito à oposição, entendendo-a como necessária, pois impede abusos de poder, confronta pontos de vista e se reveza no governo, oxigenando-o, superando ideias viciadas e em muitos casos produzindo consensos. A incapacidade de ver mérito no projeto do outro, ou a disputa pela paternidade de ideias, só demonstra infantilidade política.
O nível da atual campanha para presidente da Republica atingiu patamares que transcendem qualquer visão de disputa minimamente civilizada. Predominam preconceitos, insultos e um instinto de destruição, numa simplória visão entre bem e mal, Deus e o diabo, nós e eles. Fica claro que para muitos a democracia continua sendo intolerável, já que o desejo não é de confrontar ideias nem de melhorar a vida das pessoas, mas aniquilar quem pensa diferente, não se quer a coexistência, mas a liquidação. Assiste-se aos argumentos mais sórdidos para justificar a intolerância, como o brasileiro não sabe votar, é ignorante e até que nem todos deveriam votar.
Há uma vontade inconfessa ao pensamento único, a imposição de uma "pseudo verdade" que se aproxima do fundamentalismo religioso, o que demonstra o apreço por ideais autoritários incapazes de conviver com a diferença, algo que a história já demonstrou repetidas vezes onde pode desaguar e, certamente, não é esse o caminho que desejamos.
Apela-se aqui, para que antes de se defender qualquer posição política ou ideologia, se priorizem os valores democráticos, a livre manifestação de ideias, sem rotulagens pejorativas e preconceituosas de quem se acha superior. Devemos reivindicar a qualificação do debate e não a desqualificação dos adversários, somos todos cidadãos e devemos estar ávidos pela construção de um país melhor, mais justo e em que todos possam ter vez e voz, ainda que partamos de visões diferentes, como convém à democracia. Ninguém detém o monopólio da verdade e da virtude e é apenas por meio do diálogo franco e respeitoso no campo das ideias que poderemos avançar como sociedade. Se a história tem algo a nos ensinar, é que não existem ideologias imaculadas e perfeitas, mas ideais em contínuo processo de experimentação e aperfeiçoamento. Independentemente da preferência partidária e ideológica de cada um, vamos priorizar os valores democráticos e a convivência respeitosa com a diferença.

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina

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