ESPAÇO ABERTO - Inferno Astral
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de setembro de 2003
René Ruschel 
Todas as pesquisas de opinião demonstram que nestes oito meses de administração petista, o governo e seus aliados continuam guindados muito mais na figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que propriamente em seus feitos. As consultas, sem exceção, apontam índices superiores à credibilidade de Lula perante a opinião pública, enquanto o governo ainda patina na tentativa de encontrar caminhos que possam pavimentar suas ações. Se por um lado isso é até compreensível, uma vez que o rearranjo burocrático é quase total, por outro deve servir como sinal de alerta de que já se passaram oito meses sem que nenhum projeto, principalmente na área social, tivesse qualquer resultado concreto. Dentro de pouco mais de sessenta dias estaremos no embalo de final de ano; depois férias, carnaval e 2004.
Se analisado pelo ângulo do bom-senso, o governo caminha razoavelmente bem. A reforma da Previdência, com seus erros e acertos, não deixa de ser uma conquista importante, um avanço na estrutura pública. A retomada da credibilidade do País junto ao mercado financeiro e o bom desempenho de alguns setores da economia, notadamente o agrícola, contribuíram para amenizar os efeitos da crise. Além disso, o carisma do presidente Lula tem sido um instrumento fundamental neste momento de transição política. Mas é preciso lembrar que a paciência popular tem um limite e é bem menor do que desejariam os governantes, afinal, as promessas de campanha foram superiores a capacidade de implantar e implementar suas ações.
A inexperiência levou o governo a cometer erros primários. Um exemplo é o programa Fome Zero. Durante todo o período eleitoral foi o carro chefe da campanha de Lula, mas começou a falhar antes mesmo da solenidade oficial de lançamento, no interior do Piauí, quando se chegou à conclusão que os gastos para se montar a estrutura física seria infinitamente superior aos benefícios distribuídos aos sertanejos. Pode parecer algo simplista, de menor valor, no entanto foi a primeira demonstração que havia algo de errado no planejamento e elaboração do programa. Um projeto piloto, com menos alarde e sem nenhuma pompa, porém eficiente na fórmula e eficaz nos resultados, teria servido não só como experiência, mas principalmente para mostrar a sociedade que a idéia é viável e passível de ser posta em prática.
O presidente tem demonstrado em seus pronunciamentos um certo descontentamento com os resultados obtidos - ou não obtidos - até agora por alguns ministros. Neste caso, a única hipótese seria uma mudança na equipe. Acontece que a escolha de nomes, em todos os escalões, é outra questão que vem sendo criticada por alguns petistas. O último a bater pesado foi o senador Eduardo Suplicy que inclusive nominou abertamente o ministro José Dirceu de estar fazendo o ''loteamento de cargos''. Para agravar ainda mais, em alguns setores, como o da saúde e reforma agrária, pipocam sintomas que algumas medidas urgentes precisam ser tomadas. Sem dúvida o governo Lula vive um período de inferno astral.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


