A Unicef divulgou este mês estudo que aponta 27 milhões de crianças vivendo abaixo da linha da pobreza no País, que tem 35 mortes a cada mil nascimentos. A situação é calamitosa: pobreza, conflitos armados e Aids são, no início do século 21, as principais ameaças às crianças e aos adolescentes no mundo, aponta o órgão da ONU. No Brasil, dos três problemas, o que mais preocupa é a pobreza. Segundo o relatório Situação Mundial da Infância 2005, 45% das crianças e dos adolescentes do País vivem abaixo da linha da pobreza. Ou seja, de todos os 60,3 milhões de brasileiros com menos de 18 anos, 27,4 milhões vêm de famílias em que cada membro sobrevive com menos de R$ 4,33 por dia (menos de meio salário mínimo por mês).
Ao lado de outros países, o Brasil é citado no relatório: ''Meninos e meninas revirando pilhas de lixo em busca de alimento em Manila, obrigados a carregar uma AK-47 pelas florestas da República Democrática do Congo, forçados a se prostituir nas ruas de Moscou, privados dos pais pela Aids em Botsuana, mendigando comida no Rio de Janeiro''. As informações do relatório foram obtidas, no caso do Brasil, de números colhidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e por outros órgãos do governo nos últimos três anos. Enquanto atinge 33,5% de toda a população brasileira, a pobreza avança mais sobre as crianças e os adolescentes engloba 45% deles. A representante da Unicef no Brasil, Marie-Pierre Poirier, faz uma comparação para citar uma região onde o índice pode chegar a alarmantes 96%. No caso do problema dos conflitos armados, a Unicef tratou da violência urbana no Brasil. Anualmente, 14 mil jovens entre 12 e 19 anos são mortos de forma violenta. As maiores vítimas são meninos negros. Em relação à Aids, o relatório mostra que a síndrome atinge mais as adolescentes.
A imagem negativa do Brasil na abertura do relatório, não impediu que a Unicef tecesse elogios ao programa brasileiro de combate à Aids e ao Bolsa-Escola. Em 1960, o índice de mortalidade era de 177. A situação brasileira chega a ser pior que a dos territórios palestinos (106º lugar e 24 mortes), que vivem em clima de guerra. Provavelmente a cifra absurda desses indivíduos envolvidos no mundo do crime seria menor se houvesse políticas públicas realmente contemplativas da infância. Infância desprovida é o que revela o relatório da Unicef que outra vez confirma, aliado a outros estudos, que a diminuição da criminalidade está associada ao combate do processo brutal de desigualdade social. Dignidade deve ser um direito de todos. Que em 2005 haja paz na terra e homens e mulheres de boa vontade para promover vida em abundância, como está no Evangelho de João 10:10.

FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é doutora em Ciências Sociais e docente na Universidade Estadual de Londrina e na Uninorte/Londrina

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