ESPAÇO ABERTO - Impasses no Governo Lula
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sexta-feira, 14 de maio de 2004
Paulo Henrique Martinez 
A passagem dos 40 anos do golpe de Estado de 1964, que desaguou na ditadura militar, nos remete ao presente da vida política nacional. Muito se tem escrito e falado sobre o fim do regime militar no Brasil e a vitória das oposições. Visto de outro ângulo, os propósitos da ditadura não desapareceram, mas ganharam fôlego nos governos civis.
Lula é o expoente mais expressivo da negação política naquele período. Encarnou as possibilidades de transformação do país, traduzidas no PT, na CUT, no MST, nas Diretas-Já, na Constituinte, no Lula-lá e no Fora Collor. Antes da metade de seu governo, um crescente mal-estar acossa dirigentes e eleitores do PT e seus aliados históricos. De onde brota o desconforto dos vitoriosos de 2002, baluartes da resistência à ditadura militar?
A era FHC amarrou o Brasil à globalização perversa, amordaçou a autonomia nacional com serviços da dívida externa e multiplicou a dependência com as diretrizes de organismos internacionais para saúde, educação, agricultura, políticas de emprego e renda. Nestes oito anos, Lula e o PT recolheram feridos pelo caminho, em busca de votos nas eleições presidenciais. A galope, raciocinaram: cavalo encilhado não se deixa passar.
A composição do novo governo, por sua vez, esfacelou uma unidade frágil demais para resistir aos métodos de ascensão eleitoral. Santo André e Waldomiro Diniz surgem como as faces da moeda do financiamento de campanhas e estruturas partidárias. O PT aderiu aos comportamentos políticos de seus adversários, jurando fazer isso para combatê-los.
O preço é alto. No balcão do Congresso Nacional, cargos e verbas do governo federal são lambidos com avidez pela ''base aliada''. Hábeis na tática política, dirigentes petistas revelam-se débeis na estratégia de futuro. E recebem abraços de afogados. São mais de 20 anos de recessão e instabilidade econômica. Lula faz sangrar chagas abertas pela herança maldita de FHC, arrastada num pesado baú, desde a ''transição democrática''.
A panacéia da vez é a parceria comercial com a China. Exportação de soja e minério de ferro não são passaporte para desenvolvimento econômico, distribuição de renda, geração de empregos e preservação do meio ambiente. É, antes, atestado de inserção reduzida e subordinada na economia mundial. Obra da ditadura militar, colorida com tintas neoliberais da caneta do prof. FHC. Pode o governo Lula sair desse círculo? Deseja isso?
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor no departamento de História da Unesp em Assis (SP)


