ESPAÇO ABERTO - Igreja, pedofilia e sociedade
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de abril de 2010
Romão Antonio Martini Martins 
Discordo do meu companheiro de ministério, padre José Rafael Solano Durán, que em seu artigo ''Celibato e pedofilia'' (Espaço Aberto, 06/04) pergunta se ao se ''aproximar de uma criança, de um adulto ou de um adolescente'' deve guardar quilômetros de distância. No vasto universo religioso e sacerdotal católico, os pedófilos são ínfimas exceções. Em toda a história da Igreja sempre houve pessoas e acontecimentos que a macularam. Trata-se do lado frágil de uma instituição que não está imune a distúrbios humanos e que sobrevive há séculos porque nasceu do coração de Deus.
Paralelo aos maus exemplos a Igreja está repleta, numa proporção infinitamente maior, de pessoas admiráveis que viveram e vivem de forma exemplar a sua fé. É imensurável o bem que a Igreja e tantos sacerdotes, religiosos e leigos fazem quando visitam e confortam os doentes, consolam famílias enlutadas, restauram vidas e relacionamentos, quando celebram, falam do amor de Deus e estendem a mão solidária a pobres que não têm o que comer nem onde morar. São incontáveis seus santos e mártires. Somos a Igreja de Jesus Cristo, de Francisco de Assis, de Madre Tereza de Calcutá, de D. Helder Câmara, de Irmã Dorothy Stang, de D. Paulo Evaristo Arns etc. Somos a Igreja das lutas pelos direitos humanos e pela defesa da vida. Infelizmente, o pouco e imprestável joio ganha mais notoriedade do que o bom e abundante trigo eclesial.
Pedofilia é um mal abominável protagonizado por gente desequilibrada e mal resolvida afetivamente. Coisa de covardes que se aproveitam da inocência das crianças a fim extravasar sua compulsão sexual. Infelizmente, pessoas ligadas à Igreja também sucumbiram a este pecado. Isso acontece porque há os que, embora dentro da religião, ''vivem'' uma fé de fachada, não estão num verdadeiro processo de conversão, mal e mal são profissionais da palavra, medíocres religiosos que escandalizam a obra de Deus e envergonham os que trabalham sério e são fiéis à sua missão. O cuidado com a regeneração e o resgate dessa gente não deve livrá-las do julgamento nem da pena que merecem, tal como ocorre com qualquer cidadão.
É visão míope reduzir pedofilia a coisa de celibatários, padres, pastores ou qualquer outra classe de gente. Nenhum grupo humano está imune a este mal. Uma pesquisa na Alemanha revelou que dos 210 mil casos denunciados no país desde 1995, só 94 (0,044%) envolveram pessoas da Igreja Católica. Na Espanha uma quadrilha oferecia serviços de babá e abusava das crianças; Álvaro I. G., de 23 anos, abusou sexualmente de mais de 100 crianças. Na Franca, em 2005, 62 pessoas foram condenadas por envolvimento numa rede de prostituição infantil; pais chegaram a estuprar os próprios filhos ou oferecê-los a outras pessoas para sexo. No começo deste milênio mais de 6 mil pessoas foram detidas nos EUA numa operação contra pedófilos. Em abril de 2005 a polícia argentina desmantelou um ''clube de pedófilos'' internacionais. Em abril de 2009, no Estado de São Paulo, um agricultor de 46 anos foi preso por abusar sexualmente da neta de 2 anos. Em março de 2009 um pastor evangélico foi preso na Amazônia por abusar de meninas entre 8 e 12 anos. Não são poucos os que em confissão sacramental se disseram abusados sexualmente por tios, avôs, primos, vizinhos etc.
A sociedade vive uma degradação moral manifestada no individualismo, no hedonismo, na indiscriminada destruição da natureza, na traição conjugal, na violência, na corrupção, na relativização da ética, na ''pulseira do sexo'', na banalização da vida, na cultura do Big Brother e também na pedofilia. Nesse contexto é hipocrisia cobrar respostas e reformas somente da Igreja. Trata-se de um processo de conversão pertinente a toda sociedade que, sem psicologismos e sem bodes expiatórios, promova e construa relações humanas dignas, maduras e respeitosas, fundamentadas em valores e princípios. Caso contrário, a raça humana será cada vez mais nivelada à promiscuidade e à delinquência.
ROMÃO ANTONIO MARTINI MARTINS é padre da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora de Londrina
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