O sociólogo Octavio Ianni, morreu aos 77 anos em abril último em São Paulo devido a um câncer. Discípulo de Florestan Fernandes, Ianni ao lado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, foi pesquisador assistente do autor de ''A Revolução Burguesa no Brasil'' (1974). Com a dissertação de mestrado (1956) ''Raça e Mobilidade Social em Florianópolis'', expõe seu interesse pela questão racial. Posteriormente sua tese de doutorado em 1961, ''O Negro na Sociedade de Castas'', reforçará essa preocupação. De 1958 a 1965, participou com jovens professores da USP da leitura coletiva de ''O Capital'', hábito que ficou conhecido como o ''Seminário Marx''. Marxista por formação, Ianni foi um crítico severo da era FHC e da gestão Lula, cujo governo qualificou em entrevista concedida em março último de ''nave de enlouquecidos'' que ''não se debruçou sobre os problemas nacionais''.
As obras publicadas com Fernando Henrique são: ''Cor e Mobilidade Social em Florianópolis: aspectos das relações entre negros e brancos numa comunidade do Brasil meridional'' (1960); e ''Homem e Sociedade: leituras básicas de sociologia geral'' (1961). A obra de Ianni representa um jogo entre os grandes panoramas, como desenvolvimento e globalização, e o espaço que dedicava a analisar a malha fina das relações sociais. ''O grande Ianni está nos pequenos ensaios'', disse Gabriel Cohn, que destacou uma publicação do início dos anos 60 chamada ''O jovem radical'', na qual Ianni aborda a crise e a metamorfose dos jovens. Escreveu ''Industrialização e Desenvolvimento Social no Brasil'', em 1963, e ''O Estado e o Desenvolvimento Econômico no Brasil'' (1964). Em 1969, foi aposentado compulsoriamente da USP em razão do AI-5. Transferiu-se para a PUC e, depois, para a Unicamp, onde lecionou até sua morte. A partir da década de 90, dedicou-se à análise dos efeitos da globalização tendo publicado, entre outros, ''A Era do Globalismo'' (1996). Recebeu em 1993 o Prêmio Jabuti por ''A Sociedade Global'' (1992). Em 2001, ''Enigmas da Modernidade - Mundo'' (2000) lhe rendeu o Prêmio da ABL (Academia Brasileira de Letras), de Intelectual do Ano.
Numa de suas conferências - O Socialismo na Era da Globalização - que assisti em 1999, Ianni destacou que o Estado nação, devido à globalização passou a ser uma província mundial. Afirmou ainda, que Max Weber, Karl Marx tiveram intuições fecundas sobre a transnacionalização do capital e que não puderam aprofundar suas análises devido às limitações de sua época. Em contrapartida, dizia que nós podemos fazer isso a partir da dialética de nossa realidade. Enfim, Ianni será sempre reconhecido na sociologia brasileira como pertencente a uma geração decisiva na consolidação dos estudos sociológicos voltados ao conhecimento do país. Como Florestan Fernandes, será sempre referência para não desistirmos da construção de uma sociedade sem exclusões e sem excluídos.

FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Ciência Política em Londrina

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