ESPAÇO ABERTO - Hora de mudar o azimute
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terça-feira, 09 de março de 2004
Gaudêncio Torquato 
A eficácia geral de um governo depende do ajuste entre os três cintos que apertam a administração: o político, o macroeconômico e o social. Quando um governo não satisfaz as demandas políticas, impõe sacrifícios econômicos e deixa de lado as grandes questões sociais, é quase impossível sobreviver. Foi assim com Collor. Distanciou-se do Congresso Nacional, abriu feridas imensas no corpo social (quem não se lembra do confisco?) e fez experiências extravagantes no terreno da economia. E não foi por falta de aviso. Antes do impeachment, Fernando Henrique, na época líder do PSDB no Senado, chegando a prever a catástrofe, sugeriu que um interlocutor do presidente levasse a ele a idéia de se fazer um ''governo de coalizão nacional''. O senador José Agripino (PFL), escolhido para a tarefa, não conseguiu convencer Collor, que se mostrou irredutível ante a proposta de dividir poder com o Congresso. Preferiu recompor o Ministério com perfis notáveis. O tranco, porém, acabou vindo.
O governo Lula jogou todas as fichas para ser o contraponto a tudo que lembre tumores e abscessos do passado. Não está conseguindo. A cara da administração começa a ser maculada por protuberâncias. É verdade que tem amplo apoio no Congresso. O rolo compressor na Câmara dos Deputados chega quase a 400 parlamentares. Mas a área social ainda está esperando as grandes mudanças. Com o País patinando, fumaça ainda saindo da fogueira acesa por Waldomiro Diniz, um clima de boatos sobre denúncias em escala crescente, envolvendo outros operadores petistas, e um cenário social de expectativas não atendidas, a alternativa que resta a Lula é apenas uma: mudar o azimute. Se não alterar o sistema de coordenadas para navegação do barco governamental, o farol do Palácio do Planalto não conseguirá conduzi-lo a porto seguro. Será pior para todos, porque um barco à deriva traz muita insegurança.
Parece estar ocorrendo com o governo o problema do jogador de cartas que não sabe jogar. Ele tem boas cartas, mas perde o jogo para outro que recebeu cartas menores e usa melhor estratégia de jogo. No caso, o jogador melhor são as circunstâncias. O governo não está sabendo lidar com elas. Por quê? Ora, o governo escolheu uma linha de jogo, já consumiu 25% do mandato na administração dessa estratégia, sem alcançar resultados expressivos nos meios e nas margens da sociedade. Está pagando o custo de imagem, mas não recebe a contrapartida dos benefícios, cometendo um duplo erro, caso a linha adotada for ineficaz para chegar ao ''maior espetáculo da terra'' na área social.
Erra o governo em não ter calculado o desgaste que seu plano está consumindo ou sem haver realizado uma análise de confiabilidade das projeções. Basta ver o que tem sido prometido desde julho do ano passado, marcado para ser o ''início do espetáculo do crescimento''. Erra ainda o governo quando diz: estas são as únicas cartas com que devemos e precisamos jogar. Ora, a arte da política e da administração abriga estratégias variadas de jogo, que, estudadas nos contextos, abrem múltiplas possibilidades de eficácia. É claro que o governo Lula tem mais cartas para exibir, a não ser que os jogadores macroeconômicos e os animadores sociais do PT tenham apertado uma bitola na cabeça.
Mudar o azimute, pois, é a indicação. A fumaça da fogueira política está intoxicando os pulmões da sociedade. E, de escândalo em escândalo, a sociedade vai se amoldando às camadas negativas que infestam o meio ambiente, acabando por banalizar os efeitos perversos da cultura de corrupção. Isso é terrível.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político


