ESPAÇO ABERTO - Homens de responsabilidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de novembro de 2003
Carlos Alberto João 
Não há responsabilidade, a menos que não haja constrangimento e violência. O oprimido é que é o responsável por tudo, pelo que não fez e pelo que os seus opressores fizeram. Se dessa situação toda física, passa no terreno moral, para a abstração, a responsabilidade é uma caricatura de uma quimera irrisória. Moralmente os indivíduos são tão responsáveis pelas coisas como pela rotação da terra.
Ninguém responde nesse mundo a coisa alguma, salvo se é bastante ingênuo para posar de Atlas e suportar a esfera sobre os ombros. Convencionou-se, entretanto, a chamar certos cavalheiros, aninhados nos galhos mais altos da árvore paradoxal da sociedade, que só dá frutos e sombra a reduzido número de homens de responsabilidade, muito embora se saiba iniludivelmente que eles não têm nenhuma.
Ora, esses ''homens de responsabilidade'' vêm afirmando uma dessas frases que mais friamente penetram na consciência alarmista do País. Dizem eles que o Brasil chegou a uma situação tal que só pode ser governado pelo arbítrio. Só há uma divergência nesse ato: para uns, é o dos que estão com a mão na roda e na massa; para outros, deve ser o dos que desejam tomar conta dos freios da máquina de fazer governo, e nesse último, todos nós, não sentirmos saudades.
Admitamos a afirmação para dar-lhe um troco na mesma moeda. Estamos nessa situação. Quem nos levou a ela? Não foram precisamente esses cavalheiros de responsabilidade que, não respondendo por coisa alguma, tomaram-se de gosto pela prepotência.
Admitir que um povo classificado de ''humilde'' e sofredor seja ingovernável é uma contradição que só um homem de responsabilidade pode exprimir. O arbítrio é uma intromissão que terá suas causas históricas ignoradas por falta do estudo a que tem horror os responsáveis do sistema. Ora, as massas que estão comprimidas não podem dar-se ao luxo de se mexer ao arbítrio: de onde se vê e se colige que esse arbítrio só há da parte dos motores da terrível mecânica.
Será crível que a prepotência seja uma represália como nos insinuam aqueles que querem justificá-lo? Dentro das normas despóticas que prevalecem, o que há é uma profunda incompatibilidade de interesses em choque, interesses de toda ordem em conflito que se agrava. O arbítrio se estenderá quando definirem esses interesses do povo oprimido e dos seus tigres e serpentes; sem isso as afirmações dos homens de responsabilidade são aéreas e utópicas.
Com efeito, já se vão abandonando as discussões, passando-se por cima de teorias e entrando-se na franqueza dos fatos, quem pode, pode. Hoje a responsabilidade, como a honra, o crime, a virtude ou o vício se apaga como as manchas de gordura nas roupas, com benzina. Às vezes mesmo sem benzina alguma; deixa-se que uma mácula maior faça desaparecer a menor. O homem de responsabilidade teme monopólio dos borrões; vão pondo uns sobre os outros e lastrando-os por toda à parte.
Muito em vez de apagar essas manchas, o arbítrio prefere comodamente sujar tudo. Depois, é natural, a responsabilidade das imundícies cabe a quem jamais tocou com um dedo nos trajos suntuosos da representação social. No entanto, é preciso fazer uma lixívia, ela é tão grande, tão vasta que só por medidas radicais, por processos de intensos debates entre os poderes e a sociedade, é que poderemos avançar um pouco, no campo moral, político e social.
CARLOS ALBERTO JOÃO é sociólogo em Londrina


