Na área das ciências médicas a profilaxia sempre deve anteceder o tratamento. Essa deveria ser a tônica a nortear toda ação profissional, pois ainda vale a máxima de que prevenir é muito melhor do que remediar.
Nos países desenvolvidos onde a medicina é exercida com responsabilidade, os aspectos preventivos compõem linhas diárias da cartilha dos médicos de família. Lamentavelmente, no Brasil a realidade da inoperância médica é refletida nas extensas filas de atendimento em postos de saúde, mesclada com choros copiosos de dores e desespero. Há muitos profissionais que honram com dignidade seu trabalho, mas ainda há alguns que maculam a profissão.
Por isso, há um viés a ser considerado na questão crônica por que passa a saúde pública brasileira: o que assistimos e vivenciamos é a absoluta falta do exame clínico no atendimento do serviço público. Alguns médicos que, quase sempre chegam atrasados, em voz alta ordenam que os pacientes entrem, chamando-os pelo número de ordem. Permanecem sentados e praticamente com a receita semipronta. O estetoscópio sequer sai do pescoço. Com o atendimento no sistema flash, receita carimbada, o procedimento dura, em média, 50 segundos.
Assim vai se perpetuando a ausência de um diagnóstico preciso e a prescrição do incorreto remédio. Doenças mal curadas engordam as filas de retorno. Isso poderia ser melhorado se esses profissionais colocassem em prática os preceitos da semiologia médica, que é entendido como a arte e ciência do exame clínico. Quando não se examina física e corretamente seguindo a ritualística, não é possível assegurar o diagnóstico preciso. É mais uma forma telepática de conduzir a medicina. Receitam-se analgésicos, anti-inflamatórios e os pacientes com cefaleia e desmaios são orientados a procurar um psicólogo.
Criam-se os diagnósticos de palpite quando a dor abdominal é traduzida pela retórica de que o problema do paciente são gases presos. Pessoas humildes não entendem os termos médicos, não sabem a linguagem técnica e saem dos consultórios com mais dúvidas do que entraram. Em certos postos públicos não há macas para se efetuar o completo exame do paciente. Nessa carência, há o casuísmo do profissional em não querer que esses equipamentos sejam disponibilizados, pois assim, alegar que não tem é mais apropriado para tornar a consulta mais ultrarrápida ainda. Se o aparelho quebrou não há pressa em consertar, pois haverá terceirização nos exames, com ganho casado para quem solicita.
Se a população tiver coragem acabaremos com essa vergonhosa enganação. É preciso denunciar e registrar ocorrência na ouvidoria. Chamar a imprensa e exigir um quadro na porta dos consultórios com os nomes dos médicos e sua jornada de trabalho contratual. No serviço público a publicidade precisa ser conhecida e os médicos precisam cumprir horário integral de sua jornada de trabalho e não simplesmente alegarem o atendimento aos seis, oito ou dez pacientes do dia. Por essa logística médica de atender pelo número de pessoas por dia e não o horário de entrada e saída como todo e qualquer trabalhador, surgiram os atendimentos instantâneos que antecedem as enfermidades incuráveis. Esta é uma das razões pelas quais as estatísticas no Brasil são questionáveis quando se fala em epidemiologia e terapêutica.
As melhorias podem e devem ocorrer, sempre com a boa cumplicidade das pessoas, dos interessados e voluntários da busca da verdade. A persistir esse modelo obsoleto e enganador, teremos que repensar o juramento de alguns desses profissionais, substituindo Hipócrates por hipocrisia.

WILMAR MARÇAL é professor universitário em Londrina

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