ESPAÇO ABERTO - Herança de Getúlio Vargas
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 2003
Léo de Almeida Neves 
Um estadista se qualifica pela sua visão estratégica e pela perenidade de sua obra. Getúlio Vargas é o maior estadista da América Latina por ter fincado, nos seus 19 anos de Presidência da República (1930 a 1945 e 1951 a 1954), alicerces sólidos para que ostentássemos crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 7% no período de 1930 a 1980 (50 anos).
Nossa história republicana se divide entre o Brasil agrário, sustentado pela monocultura do café de antes de 1930, e o país industrial e próspero construído pela Revolução vitoriosa, liderada por Vargas. Quarenta e nove anos depois do seu suicídio, em 24 de agosto de 1954, avultam as realizações do inolvidável líder popular, responsáveis pelo desenvolvimento econômico e social da Nação brasileira.
A Petrobras em 3 de outubro vindouro completará 50 anos, e a auto-suficiência na produção do petróleo está à vista para daqui há um triênio (2006). Agora, extraímos 1,6 milhão de barris diários de óleo bruto e as reservas identificadas garantem o atual consumo por 19 anos.
A auto-suficiência em derivados de petróleo, essencial à segurança nacional, será necessariamente garantida com a ampliação das atuais refinarias e a construção de mais duas, uma no Rio de Janeiro, onde a Bacia de Campos responde por 92% de óleo extraído, e outra no Nordeste.
A Petrobras dispõe de recursos para exploração extrativa e novas refinarias, porquanto somente no 1º semestre/2003 obteve lucro recorde de R$ 9,3 bilhões. A estatal também atua no exterior na busca do ouro negro, estando prevista em 2007 a extração de 500 mil barris/dia.
A Cia. Vale do Rio Doce, criada por Getúlio Vargas em 1º de junho de 1942, veio a ser a maior produtora e exportadora de minério de ferro do mundo e, desde a época de estatal, assumiu a liderança na geração líquida de divisas. Mercê de gestão eficiente e profissional, comandada pelo Bradesco e pelo Previ Fundo de Pensão dos Funcionários do Banco do Brasil, a ''Vale'' exportou US$ 1,7 bilhão no 1º semestre de 2003, gerando lucro líquido no período de R$ 2,4 bilhões. A ''Vale'' foi privatizada em maio de 1996, com o pagamento de R$ 3,2 bilhões pelo seu controle acionário.
A Companhia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda foi o marco inicial para a implantação da indústria de base no País, alicerçada na produção de aço. Getúlio Vargas fez a fábrica na década de 40, jogando com habilidade diplomática durante a 2 Guerra Mundial para obter apoio do Presidente norte-americano Franklin Delano Rossevelt, através de empréstimo e fornecimento de máquinas e equipamentos, ao mesmo tempo em que o Brasil permitiu instalações militares dos EUA em Natal e em outras regiões e participou do conflito contra a Alemanha, enviando a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para lutar na Itália.
O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDES), fundado por Vargas em 1952, vem cumprindo papel relevante no apoio às principais companhias privadas e estatais brasileiras e na consecução de obras governamentais de infra-estrutura. O planejamento do BNDES prevê dotação de R$ 100 bilhões nos próximos anos para empréstimos fabris e a projetos de hidrelétricas e rodoferroviários em nosso território e de integração na América Latina, confiados a construtoras nacionais.
O Banco do Nordeste, lançado por Getúlio em seu derradeiro governo, tem sido o agente de fomento da economia nordestina.
A Eletrobras, iniciativa de Vargas, consumada no governo João Goulart, tornou realidade usinas elétricas monumentais como Tucuruí e a Binacional Itaipu.
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), decretada em 1º de maio de 1943, garantiu direitos aos trabalhadores e representou fator de coesão social na condução ascensional do nosso processo de industrialização.
O Dasp (hoje extinto) trouxe dignidade ao servidor público, instituindo o concurso para admissão e os planos de carreira com promoção pelo mérito, minimizando o nepotismo.
As palavras de sua Carta-Testamento, escrita com o próprio sangue, ressoarão para sempre na consciência e no coração do povo, motivando-o à luta para a conquista de uma sociedade mais justa e igualitária. Getúlio Vargas consolidou a unidade nacional e deixou legado de feitos básicos para o Brasil cumprir seu destino de potência mundial.
Léo de Almeida Neves é ex-deputado federal (PMDB - PR) e ex-diretor do Banco do Brasil. Autor dos livros ''Destino do Brasil: Potência Mundial, Editora Graal, RJ, 1995, e ''Vivência de Fatos Históricos'', Editora Paz e Terra, SP, 2002.


