ESPAÇO ABERTO - Guerra das Malvinas
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de março de 2012
Luiz Carlos Ferraz Manini e Nayara Martins Orsi <br> 
Michel Foucault escreveu em um de seus livros, invertendo o aforismo de Clausewitz, que a política é a continuação da guerra por outros meios. Foucault colocava que a sociedade moderna criou uma economia de poder no qual a violência tende a ser mais sutil, como a constante observação e vigilância imposta aos homens. No entanto, as guerras, os conflitos armados, não perderam seu vigor e muito menos sua importância enquanto elemento de discursos políticos.
Há 30 anos, em abril de 1982, iniciava-se a Guerra das Malvinas, um conflito entre Argentina e Inglaterra pelas Ilhas Malvinas (Ilhas Falkland). Posse dos ingleses desde o século XIX, o território já havia sido alvo de disputas coloniais, nas quais os britânicos assumiram o seu controle. Desde então, as discussões sobre os direitos concernentes ao arquipélago jamais abandonaram a retórica política argentina, uma vez que se tratava de discutir e colocar à prova a soberania sobre o território.
Entretanto, em 1982, os governos militares da América do Sul passavam por uma crise de legitimidade, uma vez que a Guerra Fria já se desfazia, e não havia mais motivos suficientes para manter o poder de acordo com tais argumentos. Da mesma forma, os governos já haviam eliminado suas oposições, sendo sua posição férrea à frente do comando insustentável. É nesse contexto que Leopoldo Gualtieri comandou a invasão, utilizando o pretenso direito argentino sobre o território, mas buscando, através da conquista, reaver a popularidade junto a seu povo.
Da mesma maneira, os tempos não eram bons para a Inglaterra. Margaret Thatcher estava à frente do governo, sofrendo duras críticas em virtude das medidas econômicas que implantara, abrindo caminho para a entrada do neoliberalismo na Europa e desconstruindo o modelo de bem-estar social ali estabelecido. Desemprego, protestos, queda na popularidade, eram fatores que levavam o Partido Conservador para uma perda de credibilidade junto ao eleitorado. Situação essa agravada pela guerra, que se tornou decisiva no ano eleitoral. Assim, a guerra tornou-se situação inegociável, mesmo em face aos desproporcionais gastos gerados, pois a vitória geraria o fator de aprovação necessário aos conservadores e garantiria a vitória nas eleições.
As tropas mobilizadas pelos ingleses eram cerca de três vezes superiores ao total mobilizado pelos argentinos e, ao final da guerra, dos cerca de 900 mortos, mais de dois terços eram argentinos. Garantiu-se a permanência da posse inglesa, e tal situação agudizou as tensas relações entre os países, não se chegando, ainda hoje a um consenso sobre a posse dos territórios. Os governos Kirchner só têm inflamado a discussão, acusando a Inglaterra de querer manter uma situação colonial, haja vista a distância das ilhas perante à Europa. O argumento inglês é o mesmo, ao acusarem os argentinos de quererem impor a um povo uma forma de governo que não lhes agrada e que não é desejada pelos mesmos. Mais ainda, a presença de petróleo nas águas da região reafirma as acusações, ao se sugerir que a posse tem o fim exclusivo de se valer desse recurso.
Retiramos desse balanço, afinal, uma perspectiva um tanto incoerente com o que normalmente podemos observar e discutir a respeito da globalização e seus efeitos. Em um mundo cada vez mais integrado e com distâncias virtualmente menores, os nacionalismos ressurgem com força, realimentando disputas de fundo colonial que já se julgavam superadas e tentando reafirmar o papel do Estado na condução dos rumos da nação. Isso nos lembra algumas palavras de David Fromkin, ao discorrer sobre a aparente tranquilidade antes da Primeira Guerra Mundial, dizendo que a transparência da atmosfera significa pouco; o céu claro pode irromper em fúria tão repentinamente quanto o oceano.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI e NAYARA MARTINS ORSI
são, respectivamente, professor de História e estudante do segundo ano do Ensino Médio em Londrina
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