ESPAÇO ABERTO - Gravidez na adolescência: um salto no escuro
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de janeiro de 2005
Moacir Costa 
Os casos de gravidez na adolescência vêm crescendo assustadoramente no Brasil. Hoje são mais de um milhão de jovens gerando filhos. Na realidade, são crianças gerando bebês.
Para se ter uma idéia da seriedade do problema, estima-se que um terço desses bebês serão abandonados praticamente depois dos primeiros dois anos de vida. Isso explica a expectativa de crescimento futuro da violência, prostituição, roubos e do consumo e tráfico de drogas entre crianças e adolescentes.
É preciso levar em consideração que há uma valorização excessiva do erotismo infantil, algo que se vê na televisão, na música, na mídia em geral.
Além disso, os pais não conversam com seus filhos a respeito de sexualidade, assumem uma posição tímida e medrosa, quando deveriam conversar francamente sobre os diversos aspectos do tema. Poderiam orientar sobre métodos contraceptivos, alertar sobre os perigos de doenças sexualmente transmissíveis, mostrar a importância do uso da camisinha nesses tempos de Aids e falar da angústia em relação a uma iniciação sexual precoce e as consequências de uma gravidez na adolescência.
É importante lembrar que há uma incidência maior de crianças prematuras nascidas de mães com idade abaixo de dezesseis anos, comparadas às nascidas de mães com mais de vinte anos.
As precárias condições de nutrição nos países do terceiro mundo, onde está incluído o Brasil, comprometem essas gestações. As jovens, sentindo-se pressionadas e hostilizadas pela família, tendem a esconder a gravidez, evitando a ingestão de alimentos e assim comprometem o peso do futuro bebê, contribuindo, inclusive, para o surgimento de problemas neurológicos na criança (epilepsia, deficiência mental etc.).
A gravidez na adolescência é um salto no escuro; para a criança que vai nascer e para a futura mãe, uma jovem que perde essa importante fase da vida. As perspectivas de vida dessa adolescente começam a fechar, dificultando bastante a ''inserção'' profissional bem como a perda do envolvimento com os aspectos afetivos da adolescência. Muitas vezes o bloqueio da sexualidade é duradouro, necessitando de ajuda psicológica.
O problema é complexo e precisa ser debatido exaustivamente, reavaliado e repensado por pais, educadores e médicos. O apoio ao adolescente é fundamental custe o que custar.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
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