Mudança expressa o conceito-chave que inspirou a trajetória de quase três décadas do Partido dos Trabalhadores e que tem em Lula da Silva o principal intérprete. Ancorado nesse conceito, o presidente comemorou os 18 meses do ''governo de mudanças'', deixando para o chefe da Casa Civil, nomeado gerente geral da administração, a missão de ler um calhamaço de fatos e feitos, muitos dos quais não saíram do papel.

Vejamos as mudanças feitas por Lula, começando pelas políticas de avaliação de desempenho e distribuição de recursos. No quesito desempenho, o critério subjetivo de escolher amigos para os cargos ministeriais representou um retrocesso. O próprio presidente reconhece que o modelo de gestão inspirado em amizade ''está fadado ao fracasso''. O desempenho dos atores políticos, por sua vez, determinou critérios para liberação das verbas no Orçamento, constatando-se liberação de fartos recursos para a base aliada e mão fechada para os opositores, na esteira do ditado dos coronéis da velha política: ''Aos amigos, pão; aos inimigos, pau''.

Inovação política é a última coisa que se pode creditar a uma administração que tem usado, de maneira despudorada, a caneta do poder para colocar inexperientes militantes do partido majoritário em altos postos, queimando quadros que compunham uma reserva técnica de qualidade.

As classes médias foram jogadas nas margens do esquecimento. A atualização da tabela do Imposto de Renda em índices justos para acompanhar a inflação dos últimos anos passa batido aos ouvidos do ministro Palocci. O presidente Lula edita medida provisória dando liberdade à Agência Nacional de Saúde para regulamentar a mudança nos critérios dos planos de saúde. Pior: a agência usa propaganda enganosa para induzir 18 milhões de brasileiros que adquiriram seus planos antes de 1999 a assinar novo contrato, numa jogada que favorece as operadoras. Milhares de brasileiros não poderão pagar os reajustes.

Os avanços continuam em direção ao bolso. O brasileiro pagou, em média, R$ 3 mil em impostos em 2003, o equivalente a 38% do PIB. Trabalha em média quatro meses e 13 dias para pagar tributos e mais três meses e oito dias para comprar os serviços que o governo deveria lhe dar em troca dos impostos pagos. É uma conta que vem de longe. Mas a soma de sacrifícios tem aumentado no Governo Lula.

Mas é verdade também que, apesar dos sinais de recuperação dos níveis de emprego, mais de 2 milhões de pessoas estão procurando trabalho nas seis principais regiões metropolitanas do País. Portanto, tampouco na área econômica se pode desfraldar a bandeira da mudança. Trata-se de uma política monetária de cunho conservador, continuidade do Governo FHC, a que a atual administração atribui a ''herança maldita'' recebida. É verdade que o governo tem como créditos o controle da inflação, a diminuição do risco Brasil, a recuperação do fluxo de capitais, o enorme superávit da balança comercial e a estabilidade cambial. É pouco, porém, para caracterizar um governo mudancista.

GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e professor da Universidade São Paulo

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