Após um período conturbado a cidade de Londrina quer acreditar numa mudança capaz de lhe devolver o otimismo e a esperança num futuro melhor, com ética, responsabilidade e compromisso com o bem-estar dos seus cidadãos. Certamente, um dos principais desafios do novo prefeito é unir uma cidade que se encontra perversamente separada por um abismo socioeconômico, em que se confrontam bairros cinematográficos, com favelas que mais parecem campos de refugiados de regiões em conflito. Ainda assim, diferentemente do que seria racional, os bairros mais pobres são invariavelmente os que menos recebem atenção do poder público, o que só aprofunda as inconsistências e leva as populações mais ricas a se cercarem de muros e seguranças movidas pelo medo. Soluções paliativas incapazes de resolver o problema na sua raiz.

Só teremos paz e justiça de fato quando as demandas dos mais pobres forem priorizadas, levando em conta o deficit acumulado ao longo do tempo. O compromisso com o bem coletivo obriga a se tratarem os desiguais de forma distinta e é bom lembrarque Londrina apesar da sua riqueza e vocação progressista, conta com cerca de1/5 da sua população em condição de pobreza e possui mais de 12 mil famílias com renda per capita inferior a R$ 140. Como dizia Gandhi, "a pobreza é a pior forma de violência".

A história nos ensina que os avanços econômicos, ainda que essenciais, não garantem por si só a resolução dos problemas sociais. O Brasil durante quase um século apresentou alguns dos melhores indicadores econômicos do mundo, sem contudo eliminar a miséria. Pior, alimentou as desigualdades por meio de mecanismos de dominação e exclusão que nos marcam vergonhosamente como nação.

É inegável a importância de uma gestão municipal comprometida com o rigor técnico, que ultrapasse o corporativismo e os interesses particulares que vêm sequestrando a prefeitura nos últimos tempos. Porém, apenas o rigor técnico, a probidade administrativa e o crescimento econômico, ainda que fundamentais, não garantem o compromisso com a ética no seu sentido maior, já que ética, não é só fazer as coisas de forma correta, mas também fazer as escolhas mais apropriadas e justas, o que obriga a uma profunda reflexão sobre a hierarquia de prioridades, o que certamente implica em colocar as demandas dos mais desfavorecidos na frente.

Diante da complexidade do mundo atual e da necessidade de se avançar em relação às viciadas fórmulas de gestão representativa, emerge o modelo de governança participativa, que pretende expandir as fronteiras democráticas e ampliar o espaço público. Esse modelo apoia-se numa maior legitimidade popular. O poder público abandona a tradicional onipresença e passa a atuar de forma transparente, com canais permanentes de participação e compartilhamento de responsabilidades com a sociedade civil, sob a forma de conselhos municipais, igrejas, associação de moradores, ONGs e universidades. São exemplos concretos de governança participativa as experiências de planejamento e orçamento participativo, os conselhos nas diversas áreas de políticas públicas, além dos mecanismos de consulta popular, como referendos e plebiscitos.

Sabe-se que os desafios enfrentados pelo novo governo municipal são imensos, as demandas gigantescas e os recursos escassos. Não podemos acreditar em fórmulas mágicas, nem em salvadores da pátria e muito menos querer terceirizar as responsabilidades de cada um de nós para o governo. Precisamos fortalecer o exercício da participação cívica e a sensibilidade para que sejamos capazes de nos indignar e comprometer com a união da cidade e assim orgulharmo-nos de Londrina, não pelos sinais de opulência, mas pela ausência de pobreza e pela capacidade de sua gente em se mobilizar em favor do bem comum.

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas).
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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