ESPAÇO ABERTO - Games e demônios
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de julho de 2003
Walmor Macarini 
De repente os card games (CG) começam a preocupar certas correntes religiosas. Talvez porque estejam invadindo um domínio que é delas: o uso dos chamados demônios. É que os card games têm um componente de magia e ocultismo e lidam com figuras sombrias, em luta. As cartas dos CG têm imagens de anjos, demos e monstros, e há um lance em que o espírito de um poderoso rei é libertado, e Yu-Gi-Oh um dos personagens do jogo o incorpora. Pregadores e instituições educacionais de origem religiosa estão reagindo.
Não conheço os fundamentos dessa nova ''febre'' que envolve sobretudo os adolescentes, mas não deve ser pior do que aquilo que se vê na televisão, nas historinhas impregnadas de disputa e violência e que há mais de meio século povoam gibis, cinema, TV e agora games e Internet. Para não falar dos rambos, dos exterminadores, dos matrix, dos programas policiais de rádio e tevê que se valem das tragédias humanas para promover o espetáculo. E disso as religiões pouco se dão conta.
A polêmica toda com os card games é por causa dos ditos demônios e das magias, e estranha porque é justamente dentro dos templos citados onde mais se fala de diabos e trevas um idêntico universo de sinistra magia e ocultismo. A cada dez vezes que o pregador menciona Deus, dez vezes menciona o diabo. Então o game já começa ali dentro. Quem assiste, por exemplo, ao programa religioso de todos os dias, no horário nobre da tevê, pode perceber que satanás é um personagem muitíssimo citado. O pregador faz estrategicamente as suas cartadas, qualificando divindades do bem-e-do-mal. Assim, o denominado poder diabólico passa a ser reconhecido e valorizado. Uma jogada como a dos card games.
Há quem ache que o CG não faz mal algum. Se faz ou não, é no mínimo risível a contradição de tais religiões ao condenar esse jogo de cartas com figuras de demônios, quando são elas as grandes apologistas dessa prática. E não apenas simbolicamente como os games mas crendo que essas figuras são vivas e permanentes. As citações bíblicas são cheias de simbolismos e há que entendê-las, antes de interpretá-las ao pé da letra.
(Demônios não são mais que fraternos nossos em lastimável condição e não seres diabólicos, porque fadados à evolução. Há que saber lidar com eles, para conscientizá-los, e não adotar práticas de exorcismo, que não os afastam e só os enfurecem. Eles são atraídos pelos que, por aqui, se encontram em semelhante situação, e naturalmente provocam os seus estragos, eis que o que era um, potencializa-se em dois, ou em tantos quantos se encontrarem no círculo).
Males estão em quase tudo que se assiste na TV, estão nos games, nos jogos em rede pela Internet que são só morticínio e destruição. Eventualmente, isso pode estar também nos card games, já que simbolizam luta de vida e morte. Mas primeiro, tais religiões teriam elas próprias que começar a afastar a utilização do demônio como figurante, em seu jogo. Essa carta é muito jogada e um trunfo que elas guardam como poderoso.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


