ESPAÇO ABERTO - Futuro? Tenebroso
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de julho de 2010
Maristela Kosinski 
O choque da tomada de ''cons-ciência'' da gravidade de alguns métodos de avaliação no ensino superior me fez lembrar do popular ''Dr. House'' e o seu humor - medida sábia da mente para afastar a angústia que tais constatações nos trazem. House, associo com ''haus'', sensação refrescante que tira o amargo da boca. O amargo de ter que decidir, agir por si mesmo, recorrendo ao ''pai'' que me ''res-guarda'' e se responsabiliza - responde por mim aonde não me sinto capaz.
Que bom seria, se na vida real todas as decisões pudessem ser ''parti-lhadas'', divididas, co-responsabilizadas. Não é assim. Na vida profissional, no mundo adulto, competitivo, sem tempo, a maioria delas é ''so-litária'', imediata. Parece que o mundo acadêmico brasileiro esqueceu-se disso. Sem nos darmos conta da gravidade, as avaliações no ensino, e mais gravemente nas universidades, transformaram em rotina os trabalhos em grupo.
Surreal, se tornou a palavra, individual, indivíduo - não passível de divisão, de visão concreta, do ser, uno e pessoal. Os olhos se arregalam quando se usam estas palavras para referir-se a uma avaliação do conteúdo aprendido. Ora, como se pode medir o que foi apreendido por cada um, com avaliações em grupo? O pressuposto dos grupos passa a ser: cada um cobre o outro na sua ''defi-ciência''.
Consequentemente, cada um deixa os bancos escolares com aquilo que mais precisa, em falta. Ser faltante, incompleto, enquanto sozinho. ''Tudo posso naquele que me fortalece'' - o grupo se torna capaz de ''en-cobrir'' as minhas ''defi-ciências''. Cada parte(-tilha) é feita em ressonância com as ''facil-idades'' de cada integrante, e o todo, quando em uníssono, parece afinado. Ilusão criada pela fusão, como na Física que libera um quantum de energia. Cada parte isolada jamais produzirá os mesmos resultados.
Acredito que essa prática se instituiu, ao longo do tempo, devido às longas horas de dedicação, não remuneradas, que fazem os mestres para avaliar as produções de seus aprendizes. Perfeitamente compreensível do ponto de vista da injustiça que também se comete com os que, afinal, formam todos os profissionais do país. Deveriam talvez economizar nos diplomas também, nominando os grupos, muito mais justo, aliás, a entrega já se faz coletiva, sem nomeação ou ''re-conhecimento'' individual. Nomear o merecedor do diploma, é dar lhe o mérito (merecido) do trabalho realizado. É ''re-conhecer'' o esforço, dedicação e jornada completada.
Recorro novamente ao humor (real), e penso numa emergência num pronto-socorro, o ex-aluno se dando conta que ele estudou a bexiga e aquele é um fígado, olha para os lados e...onde está o cara que sabia de bexiga? Socorro Dr. House! Aonde teremos essa ''junta médica'', conselho ''ad-junto'' ''repar-a-dor'' e ''re-confortante'' para os nossos não saberes na vida profissional?
Para contribuir com a ''in-sanidade'' reinante, temos ainda, os benditos call center - sim, porque só servem para centralizar as chamadas, nada mais. Para ''persona-lizar'' o atendimento, foram criados. Total frustração de objetivos ou proposta inicial, cujo único indício que restou, são vozes humanas nos atendendo. Respostas programadas, decoradas, isentas de qualquer pensamento crítico ou juízo de valor. Bingo! Talvez seja exatamente esse o objetivo: seres não pensantes, não críticos, não avaliativos. Pobres desses jovens de mentes brilhantes, solo fértil para o crescimento da sabedoria e ''conhe-cimento''; ora, cimentados pelo poder esmagador do processo incontrolável do ''desenvolvimento''. Crescimento acelerado de números: população, clientes, alunos, telefones, computadores, etc. Perda ou morte do indivíduo, aquele ser indivisível, visível na sua individualidade, único, mente e corpo. Ser crítico, pensante e concluinte. Talvez tenhamos que fazer o luto desse ser, que jaz no passado. Somos grupo, que se veste igual, alisa o cabelo igual, coloca peito igual, usa moda (igual), ouve música igual, come igual.
MARISTELA KOSINSKI é psicóloga em Londrina
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