No momento turbulento vivido atualmente pelo Corinthians, muito se fala sobre a falta de bons jogadores, incompetência da diretoria, pouca motivação, garra e todas as desculpas possíveis para justificar o que não tem justificativa. O mesmo acontece com praticamente todos os clubes brasileiros. Faço parte de uma geração que ficou 23 anos esperando o Corinthians ser campeão. Anos difíceis, de humilhação, esperança, dor e orgulho. Ainda menino, fui um dos 20 fundadores da Gaviões da Fiel e, dois anos depois, um dos quatro fundadores da Camisa 12, as duas mais tradicionais e até hoje maiores torcidas do clube.
Vivíamos o romantismo do futebol. As renovações de contrato eram acompanhadas pela torcida. O quadro associativo dos clubes, então, era invejável e a receita das mensalidades permitia a todos os clubes manter suas sedes em boas condições para a frequência de seu associado.
Hoje, entretanto, temos outra realidade, que precisa ser enfrentada com uma visão que envolva governança corporativa. É preciso acabar com o amadorismo ou será o fim de nossos clubes. Como pode o Manchester United apresentar uma receita anual de US$ 289 milhões e o Corinthians, com 24 milhões de torcedores, não poder pagar os salários de jogadores medianos? Como pode o Bayern de Munique registrar um lucro anual de U$ 47 milhões e o Flamengo não honrar os salários de seus jogadores?
É necessário pensar e planejar estrategicamente. Satisfazer o cliente, que é a exigente torcida. E planejar dá trabalho. Não se resume a escrever algumas metas. Um planejamento estratégico exige definição de visão e missão, análise de risco, metas, plano de ação, cronograma e investimentos. Os clubes, bem como as empresas que não possuírem plano estratégico, orçamento, fluxo de caixa, contabilidade de gestão e não souberem entender o que tudo isso significa, não terão futuro.
A estratégia deve envolver desde as categorias inferiores: as equipes têm que ser formadas e trabalhadas dentro de um plano de carreira corporativo. A sede deve ser auto-sustentável e o dinheiro do futebol tem de ir para o seu fim.
Deve-se encarar a realidade. Não adianta falar que não tem dinheiro e não contratar jogadores, pois estaremos matando a fonte, que é o torcedor. Melhorar os processos internos, estimular inovações, permanecer à frente da concorrência, além de gerenciar o tempo, atrair, desenvolver e manter bons talentos, são ações fundamentais para o sucesso de qualquer empresa. E é com essa visão que deveriam ser administrados os clubes no Brasil, como em outros países. Estratégia e gestão, transparência, ética, informação e muito trabalho.
RAUL CORRÊA DA SILVA é consltor empresarial em São Paulo

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