ESPAÇO ABERTO - Futebol faz mal à saúde
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de julho de 2010
Marco Antonio Stancik 
Em dias de Copa do Mundo quase todos os olhares se voltam para o grande evento. Contudo, nem sempre o Brasil foi o ''País do futebol'' nem tampouco sua prática foi sempre vista com bons olhos por aqui. É isso que constatamos, por exemplo, a partir das considerações de médicos que atuavam há pouco menos de um século e que dirigiram sua atenção para a prática esportiva.
Foi assim que, no já distante ano de 1917, Henrique Autran da Matta Albuquerque, formado pela faculdade médica da Bahia, nome respeitado no campo médico e membro da prestigiada Academia Nacional de Medicina, alertava para o risco de ''manifestações mórbidas graves'' que ele afirmava resultarem de exercícios físicos intensos realizados durante a infância. Suas conclusões, segundo as quais a prática do futebol não seria recomendável aos menores de 18 anos, foram divulgadas por um dos mais importantes periódicos médicos brasileiros daquele período, denominado ''Brazil Médico''.
O título do trabalho era ''Dos effeitos do foot-ball na criança'' e foi publicado na seção ''Assumptos de actualidade'', tudo transcrito conforme a ortografia da época. Os danos à saúde de que falava o autor seriam resultado do acúmulo de resíduos tóxicos no organismo, o que se observaria durante a realização de esforço físico prolongado. Tais resíduos teriam propriedades que afirmava semelhantes às do curare e, se não eliminados, levariam a ''uma situação de fadiga patológica''.
Na infância, isso resultaria em prejuízos ao crescimento e à nutrição e, segundo o discurso médico da época, comprometeria a raça, fazendo-a degenerar. Eis aí um dos grandes medos presentes entre a intelectualidade daqueles tempos: a degeneração racial, assunto que teria consequências desastrosas mundo afora, nos anos que se seguiram, e cujo exemplo extremo ocorreu na Alemanha nazista.
Elencando outros elementos para reforçar sua tese, Henrique Autran informava que exercícios físicos exagerados poderiam produzir um estado de ergastenia, ou seja, de debilidade decorrente do excesso de esforço físico. Resultaria daí a predisposição a doenças, tais como a tuberculose e infecções diversas, também elas apontadas pelo autor do estudo como danosas à raça humana.
Para a prática do esporte, indicava o médico baiano, seria importante que se observasse a igualdade de resistência entre os atletas, ou seja, que revelassem ''uma robustez muscular harmônica'', possuindo todos ''força e resistência mais ou menos iguais'', de forma a se evitar situações em que as crianças se esforçassem além de suas possibilidades, no intuito de vencer o time oponente.
No seu entendimento, seria imprescindível, portanto, que tudo fosse ''conduzido em ordem e que houvesse igual proporção no dispêndio de força e energia entre os que se acham disputando a vitória''. Contudo, reconhecia o autor, isso dificilmente poderia ser obtido durante uma partida de futebol. Por isso mesmo, finalizava asseverando que os prejuízos decorrentes de sua prática seriam sempre superiores aos possíveis benefícios.
Por tudo isso, o médico Henrique Autran, dizendo-se preocupado com o ''futuro da raça'' no Brasil, em seus aspectos físicos, morais e intelectuais, alertava aos pais quanto aos riscos que ele percebia na prática do futebol entre menores de 18 anos.
Fica a pergunta quanto ao que seria do futebol e de eventos como a Copa do Mundo, caso tais proposições viessem a receber maior atenção durante os anos que se seguiram. Felizmente, ao que tudo indica, os alertas médicos desabonadores ao esporte alardeados décadas atrás nunca receberam maior crédito!
MARCO ANTONIO STANCIK é doutor em História pela UFPR e profissional de Ciência e Tecnologia do Iapar em Ponta Grossa


