ESPAÇO ABERTO - Função paterna e criminalidade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de agosto de 2003
Francisca Vergínio Soares 
O caso da mãe que entregou o filho de 13 anos e o sobrinho de 16 à Polícia depois de encontrar arma e munição com os mesmos, segundo noticiou a Folha, é paradigmático de uma complexa situação que envolve um momento vital da adolescência que busca por um tipo de trabalho marginal que segue duas fantasias: a primeira é a possibilidade de ter acesso fácil ao dinheiro e a segunda, também importante, é a possibilidade de através do dinheiro, ter acesso ao consumo, respeito e admiração. Além de buscar uma identificação com quem comanda o crime.
Esta busca por modelos identificatórios nos chefes do tráfico indica, claramente, a falência de suas primeiras identificações na infância. Para o psicanalista Luiz Alberto de Freitas, a lei é necessária para que se estabeleça dentro do grupo social normas que regulem a convivência humana em termos do que podemos ou não podemos fazer. É necessário que os encarregados de apresentá-lo a criança, o façam amorosamente e de modo a levá-la a perceber as vantagens que os acordos sociais podem trazer para todos.
Em todos os seres humanos há porções de amor e ódio é uma questão de quantidade e equilíbrio. Se o montante de ódio em um ser humano é alto, as possibilidades de ações perversas aumentam consideravelmente. Assim, ''a lei, implica a imposição dos limites por parte dos pais - função paterna (que não é necessariamente exercida pelo pai, mas por alguém que se coloque como agente interditor frente à criança)''. Essa função paterna se nunca se fez atuante, esteve presente de forma fragmentada, frouxa, não permitindo que os jovens introjetassem uma figura de autoridade que lhes desse um mínimo de consistência ética, que lhes mostrasse que a lei paterna, ao interditar os desejos, tanto sexuais como agressivos, o faz para possibilitar o acesso à liberdade.
Não é incomum que adolescentes quando não encontram no seu grupo familiar uma contenção para suas fantasias destrutivas busquem, desesperadamente e de forma inconsciente nas instituições sociais, a solução para este descontrole. Estas instituições, que de forma transversa cumprem uma função paterna, são: a delegacia de polícia, o hospital (pronto-socorro ou um manicômio), as prisões e o cemitério, este sem dúvida lhes põe um limite, uma contenção, um não definitivo. Enfim, é possível afirmar que o adolescente mais vulnerável aos apelos das drogas e do narcotráfico é aquele oriundo de famílias em que os limites não são colocados de forma eficaz, são incontáveis os casos. Treze anos não é uma idade tardia, a mãe com certeza acredita no resgate do filho e como ela eu também.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, docente da UEL e Uninorte e diretora do Observatório da Violência em Londrina.


