Ao homem, mesmo que eventuais leis o facultem, não é outorgada a liberdade de cometer eutanásia, aborto ou interrupção de gravidez por causa da anencefalia, que é a ausência de cérebro no feto. O assunto está na ordem do dia. A Igreja Católica manifesta-se contra, seguindo sua linha atual de preservação da vida. Muitas pessoas acham natural que se interrompa certas formas de vida, em casos que consideram especiais. Qualificam tudo sob a ótica da racionalidade. Segundo esse conceito, um ser que nasce tem que ser um produto perfeito em sua fisicalidade.

Uma promotora pública, defensora da eliminação dos anencéfalos, assim se pronunciou dias atrás: ''Sabemos que ali não existe uma criança''. Ocorre que, se não há ali um corpo inteiro, há um espírito inteiro. Um feto não é um quisto. O homem pouco sabe de certas coisas. Apegou-se a dogmas e não quis aprender mais nada, até por temor de fazer descobertas e ter de assumir responsabilidades.

É livre dizer, embora a maioria das pessoas não creia, que os espíritos que chegam em corpos com deficiências, no mais dos casos desejaram esse experimento e - ante esse desejo - foram atendidos pela misericórdia divina, como concessão e uma oportunidade de abreviar resgates, próprios ou de terceiros. Os pais e demais pessoas envolvidas no processo também concordaram em recebê-los, mediante esse acordo, que aconteceu antes que cada qual aqui aportasse. A forma como viemos e de alguém nos abrigar, aqui, foi um consentimento de cada parte, porque a individualidade essencial de cada ser não é de agora mas tem a idade dos tempos eternos. Só o corpo físico tem uma medida de anos, porque ele se situa no círculo do tempo.

E por que não nos lembramos desses acordos celebrados antes de aqui ancorar? Para que tudo se processe pela vivenciação, dolorosa às vezes, e assim se manifeste a oportunidade de florescer em cada um o perdão e o amor. Ou não haveria mérito. Os que quebram o ''contrato'', então voltam ao plano terreno, em forma de outro nascimento, e repetem o que deixaram de fazer. Tal não é um castigo mas uma impulsão natural que ocorre pela via da consciência e da busca da natural evolução.

Este é o processo, a explicar a razão por que certas coisas ocorrem e por que algo aparenta ser uma injustiça, quando não é. Nada acontece por acaso, mas é certo que é dever de cada um que esses seres com problemas sejam auxiliados nessa travessia. Se alguém deseja, por livre vontade, ser um mendigo, ele tem sua razão de ser, embora isso não invalide que o auxiliemos no desempenho desse seu desejo. Se resolvermos tirá-lo dessa condição, e ele consentir, tudo bem.

Compreender e assumir responsabilidade ante tudo que acontece a nós e acontece ao nosso redor - este o sentido da vida. E assim tudo se tornará mais lógico e mais fácil de entender e haverá menos tormento para os que estão nesses cenários mais dolorosos e para os circunstantes.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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