ESPAÇO ABERTO - Fé na razão e razão na fé
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de novembro de 2004
Jonathan Menezes 
O pensamento moderno tendeu a conceituar seus valores e cosmovisão através do ''bom e velho'' dualismo, que se dá, por exemplo, entre bem e mal, verdade e falsidade, liberdade e escravidão, fé e razão, e assim por diante. Desta feita, define-se um termo ou um objeto pelo seu oposto. Seguia-se este preceito não apenas para se exaltar uma diferença, mas sobretudo para demonstrar que, na prática, em hipótese alguma poderia haver uma unicidade entre tais conceituações. Se, mesmo hoje, não obstássemos a tal tendência, ''fé'' e ''razão'', objetos da presente reflexão, seriam definitivamente antagônicos e jamais formariam uma unidade.
Os racionalistas ainda insistiriam em dizer que a fé não é suficientemente racional para ser relevante. Já os ''místicos'' (no sentido despojado do termo), prefeririam descartar a razão como algo não suficientemente transcendental para ser considerável. Desta forma, o ser humano chega ao ponto culminante do ''desespero'', identificado pelo filósofo cristão Francis Schaeffer como ''resultante da perda da esperança de uma resposta unificada ao conhecimento e à vida''. De sorte que, para ambos (racionalista e místico), Deus e o homem estão ''mortos'', pois ao racionalista, que se encontra no ''andar inferior'', só resta a ciência e o método; Deus e o homem perderam seu significado, e ao ''místico'', identificado muitas vezes com o pós-moderno, nada mais vale a não ser o ''salto'' no ''andar superior'', onde não há lógica ou razão, somente a experiência ''em si'' (muitas vezes sem nome, sem ninguém), o entorpecimento e uma leve sensação de puro prazer.
É bem verdade que há níveis do pensamento e da existência em que a fé destitui-se de qualquer propriedade lógica, desnivelando-se do âmbito racional, do contrário já não poderia ser concebida como tal, isto é, sem o seu teor ''ilógico'' e seu caráter de ''salto''. Outrossim, a razão, com base naquilo que se pode discutir, também tem o seu lugar e condições de dar uma ''resposta unificada'' à vida, desde que se reconheça sua não autonomia em relação à fé. Como diria John Stott, ''crer também é pensar''.
Ao cristianismo não pode ser relegada uma coisa em detrimento da outra, posto que as respostas (e perguntas) bíblicas englobam a vida e os seres humanos como um todo, sem separações entre uma parte que é ''natural'' e uma outra metafísica ou ''sobrenatural'' assim como a razão e a fé. O verdadeiro misticismo cristão não consiste em experiência (forma) sem conteúdo (essência) ou conteúdo sem experiência, mas as duas coisas, agora e ao mesmo tempo, como maneira equilibrada de se dosar o conhecimento e a vida.
JONATHAN MENEZES é estudante de teologia em Londrina


