ESPAÇO ABERTO - Fé e vírus
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terça-feira, 17 de março de 2020
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No século XIV, quando o papa Clemente VI ocupava a sedia de Pedro, Europa foi açoitada por uma das piores pandemias: “A peste negra”. O papa orientou a todos os fiéis da época, até onde podiam chegar as notícias, a evitarem o contato de uns com outros, e a rodear suas residências de piras. As piras são uma espécie de “fornos” crematórios que acesos e com aromas dentro faziam com que o contágio não acontecesse. Tudo isto porque o papa, graças ao excelente médico Guy de Chauiliac, tinha recebido medidas preventivas e com elas muitos em Roma, a começar pelo papa, se salvaram da peste.
A prevenção é uma forma de cuidar e de amar. Em tempos como os que estamos vivendo algumas pessoas de diferentes denominações religiosas criticam e condenam o fato de que os pastores realizemos certas advertências sobre a situação e tentemos prevenir sem paranoia; contribuindo para que as pessoas possam passar estas horas azedas com calma e tranquilidade.
Alguns dizem com veemência que não precisam de prevenção nenhuma, pois “jesus” os ajuda e os sustenta e nenhum mal os atingirá. De fato, o mesmo papa Clemente VI teve que enfrentar a seita dos flagelantes que, por motivo da peste, se negaram a seguir as suas recomendações e só flagelavam o corpo e rezavam para obter a cura. Dolorosa atitude, mas ainda temos bom número de flagelantes.
O papa Francisco (século XXI) tem sido alvo de críticas mordazes até de purpurados e clérigos pelo fato de ter seguido as indicações dadas pela Vigilância Sanitária e ministério da Saúde italiana. Celebrar a missa a porta fechada e sozinho na casa de Santa Marta. Realizar as audiências públicas pela TV e pelas redes sociais.
Recebi inúmeras críticas pelo fato de seguir as indicações de pedir para os fiéis receberem a comunhão na mão e não na boca. Alguns exigem este direito e não aceitam tese que possa ser intelectualmente aceitável. Tenho lido mensagens de quem diz “cadê os pastores no meio do seu povo???”
Prever é sinônimo de cuidar e amar.
O pastor é chamado a dar a vida pelas ovelhas. Em nenhum momento temos negado uma visita a um doente, celebramos os sacramentos e prestamos ajuda aos necessitados sem colocar obstáculo nenhum; só estamos sendo prudentes. Tenho plena certeza de que se pelo fato de o coronavírus se estender e chegar a limites inesperados, muitos pastores, sacerdotes e missionários serão capazes de dar e doar a sua vida pelos irmãos e irmãs; só que a prevenção é um gesto do exercício da virtude da prudência.
Ter igrejas fechadas não é uma oportunidade valiosíssima para pensar: “E quando elas estão abertas quem está dentro delas?” Ficar um pouco mais recolhidos não é uma excelente oportunidade para meditar no silêncio do Cristo que vive a paixão e morte para logo Ressuscitar?
Tempo de graça e benção este da prevenção. Muitas vezes nossa alma corre grandes riscos, perigos e sucumbimos ao pecado; pois nós nos lançamos pelo mundo como se fôssemos capazes de vencer todas as provações.
Tempo de graça e de humilde atitude ao ver que um mosquito desencadeia a dengue e um vírus desencadeia o caos. Tempo de renovar nossa entrega a quem nos criou.
Que a fé seja um vírus que nos contamine a todos para responder aos apelos do Senhor e que não se converta numa fórmula mágica para evitar catástrofes: a porta da Fé que se abre para termos acesso ao cuidado com a vida do planeta e dos irmãos.
José Rafael Solano Durán, sacerdote da Arquidiocese de Londrina


