Se a vida às vezes nos subtrai alguma coisa, logo nos retribui com outra, embora nem sempre estejamos atentos para perceber. Então, podemos fazer algo mais do que temos feito e assim retribuir-lhe o que ela nos tem proporcionado. As tarefas diárias que exercemos são apenas obrigação nossa, e isto inclui as nossas regulares benemerências. Mas podemos dedicar um pouco mais da nossa atenção e do nosso tempo para alguma coisa mais perene e expressiva e assim não sermos apenas usufrutuários mas também construtores.
Não basta contribuir com causas beneficentes, doar as coisas que já não nos servem, proporcionar a alguém um momento feliz, como costumamos fazer nesta época de fim-de-ano - embora tudo isto seja muito meritório - mas também realizar alguma coisa mais duradoura que não contemple apenas um bem-estar de momento.
Não que se deva desprezar as emergências, porque estas não podem esperar, mas podemos em muitos momentos de nossa vida exercer o sagrado ofício de plantar algo que crie raízes mais fundas e venha a transformar para melhor uma situação e a vida, neste condomínio terreno. Cada ocasião, cada circunstância, indicarão à pessoa de boa vontade, e segundo a sua capacidade, o que ele poderá fazer nesse sentido.
A vida melhor que queremos, para a humanidade, haverá de ser construída por cada um de nós. Não temos que olhar se o vizinho está fazendo a sua parte. Façamos primeiro a nossa e quem sabe iremos, assim, induzir os circunstantes. Temos um dever perante a vida, e como tributo a ela nos incumbe deixar uma cota de solução para os problemas que nos cercam.
Nossa existência não deve ser uma repetitiva rotina, como se representasse apenas caminhar por uma rota linear, à mercê dos acontecimentos, ou - como é comum ouvir-se - ''conforme a vontade de Deus''. Não somos uma multidão guiada e vergada à condição de vítima das agruras terrenas, nem estamos condenados às supostas iras divinas, mas somos nós próprios o senhor das nossas decisões, o guia dos nossos passos, o mestre e o discípulo.
Não há um Deus nos monitorando e fazendo anotações em seu livro. Ele está dentro de cada um e se move segundo os nossos movimentos. Cada um de nós é Deus em ação.
A vida haverá de ser trilhada não só dentro do imaginário túnel que construímos, caracterizado pela fatal condição do nascer/viver/morrer, mas com os olhos interiores abertos e voltados também para o sentido vertical.
Isto significa edificar algo além do convencional, de forma a que torne mais branda para todos essa caminhada horizontal - já que ela precisa cumprir o seu curso - e elevar nossa consciência para a grandiosa razão de nos encontrarmos aqui e compreendermos o que afinal somos, de onde viemos e para onde iremos.
Se nossa existência terrena tivesse apenas o sentido horizontal, talvez houvéssemos nascido seres rastejantes. Temos, porém, uma estatura vertical e isso significa nossa direção para o alto.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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