O fenômeno das drogas constitui um dos maiores desafios para os países no século XXI. É conhecido que o uso e abuso das drogas têm impactos e consequências adversas na saúde do indivíduo, da família e da comunidade, assim como no desenvolvimento, estabilidade social e segurança, tanto no nível nacional quanto internacional. As drogas, portanto, não escolhem classe social, raça, idade, escolaridade etc.
  O drama mais recente desta tragédia é do ator Fábio Assunção que, em setembro de 2009, confessou ser dependente químico. De lá para cá, ele vem lutando contra o vício dizendo: ‘‘Eu não me sinto completamente curado e não quero me sentir. Porque não posso fingir que essa doença não existe’’. O ator lembrou que as tentativas de cura se iniciaram numa clínica no Arizona (EUA), em seguida no Brasil e agora novamente reinicia o tratamento devido a reincidência.
  Há outros dramas nacionais. Caso 1: Desesperada ao ver o filho de 13 anos viciado em crack em Piracicaba (SP), mãe decidiu acorrentá-lo em casa para impedir que ele fuja para consumir a droga. Ela justifica a posição de acorrentar o adolescente como a única forma de tentar tirar o menino do vício. ‘‘Eu não aguento mais esta situação. Eu quero que alguém me ajude.’’
  Caso 2: Dona de casa de Confresa (MT), na região do Araguaia, sem alternativa, acorrentou o filho de 14 anos usuário de crack para que não saísse de casa em busca da droga.
  Caso 3: Em Rolândia, tomada pelo desespero, mãe acorrentava filho de 19 anos viciado e que tinha dívidas com o tráfico. A corrente de quatro metros permitia que o rapaz caminhasse pelo quarto, banheiro e sala da casa.
  Caso 4: Uma catadora de papel disse que acorrentou as filhas de 12 e 14 anos ao pé de uma cama para protegê-las das drogas na residência da família no Itaim Paulista, na Zona Leste de São Paulo.
  Poderíamos elencar milhares de outros casos. Entre Fábio e os adolescentes o que os distingue é a condição social, pertencentes a mundos diferentes, mas vitimados pelo mesmo mal que tem dizimado, principalmente, jovens na faixa de 14 a 24 anos que, ao abrirem a caixa de pandora, não têm noção que a vida não será mais a mesma. Como declarou Fábio, ‘‘fui brincar com uma coisa que não tinha dimensão do que era’’. O que contrasta embora o problema seja o mesmo, é a forma de enfrentamento para quem tem condições econômicas e para quem sequer sabe para onde ir, daí as soluções desesperadas como acorrentar os filhos, como se isso fosse resolver.
  Na verdade, o problema das drogas, especialmente o crack, é um problema de saúde pública, principalmente porque está se tornando uma droga predominante, uma vez que a maioria destes usuários abandona as drogas que usava anteriormente. E agora, como fechar a caixa de pandora?
  Talvez a esperança esteja no ‘‘Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas’’, com vistas à prevenção do uso, ao tratamento e à reinserção social de usuários e ao enfrentamento do tráfico de crack e outras drogas ilícitas, lançado pelo governo federal em maio último. Seu fundamento principal é a integração e a articulação permanente entre as políticas e ações de saúde, segurança pública etc.
  O novo governo terá uma responsabilidade social gigantesca face ao problema de milhares de ‘‘fábios’’ que todos os dias têm aberto a caixa de pandora. Não se pode mais ignorar os gritos de desespero de tantas mães que todos os dias pedem seus filhos para as drogas. Para ouvi-los, será preciso ‘‘governar com a alma e o coração de uma mulher’’, conforme declaração de Dilma Rousseff, presidente eleita do Brasil.

FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais, docente e pesquisadora da Faculdade Uninorte e diretora do Obsocil

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