O fogo coze a comida ou destrói a floresta; a água sacia a sede ou pode afogar ou levar tudo de roldão; o machado ajuda na edificação da casa mas pode derrubar a árvore que dá o fruto. Não há neles distinção do que possa ser um bem ou um mal, porque apenas exercem sua função da forma como são manipulados. Assim Deus, que não é um ser e sim a Suprema Sabedoria e que não se rege por emoções mas por um princípio sábio de causa e efeito. As coisas não acontecem por vontade divina, eis que somos nós que ditamos o rumo de nossa vida. Deus apenas caminha junto e experiencia isso conosco. Para onde vamos estará presente essa Suprema Inteligência. É da lei cósmica que o Universo conspira a favor do que se pretende, tanto as coisas boas como as denominadas más. Se Deus desejasse intervir não haveria sofrimentos no mundo.
Saibamos que este planeta onde habitamos é um lugar para experimento do livre arbítrio, que não é propriamente uma benção mas um instrumento. Nas elevadas esferas essa livre escolha inexiste, porque desnecessária, eis que na plenitude nada há a arbitrar. Para cá viemos voluntariamente e nossa essência guarda em seus registros tal decisão e as suas razões, embora as limitações da estrutura corpórea (a personalidade) não o saiba. Tal acontece para propiciar o mérito. O esquecimento de planos estabelecidos por nós antes de aqui ancorarmos é que nos permite o livre exercício de administrar nossas dores e exercitar o amor, mesmo nos infortúnios. Porque, se de tudo soubéssemos, depois do mergulho nesta tridimensionalidade, só faríamos cumprir tarefas, sem o ingrediente do esforço e do sentimento. Aí é onde reside o mérito.
Não há pobreza maior do que imaginar que a condição em que nos encontramos é vontade divina. De qualquer modo, isto não desobriga de olhar pelos pobres e sofridos, e se alguém está no chão temos de ajudá-lo a erguer-se. A vida é experimento e doação, e temos de nos ajudar uns aos outros nessa travessia, sem interferir no livre arbítrio de ninguém. Óbvio que se alguém quer se lançar no abismo, devemos impedi-lo, porque esta é também missão nossa. Nada deve ser rígido e arbitrário, mas é preciso um sentido de sabedoria em cada ato e em cada circunstância.
Ajudar não é entrega e nem prostração, porque isto nos tira energia vital e nos enfraquece. Tenho dito que, primeiro, é preciso preservar nossa integralidade e não permitir perda de força. Nada a ver com ego. E ajudar demais pode ser nefasto se a pessoa beneficiada habituar-se a isso e resolver não mais esforçar-se. Se somos solicitados, devemos sobretudo ajudar a pessoa a ajudar-se, fazendo-a saber que é detentora de todo o poder não o do seu corpo físico, não o da sua inteligência, não o do seu domínio sobre as mais intrincadas ciências mas o do Eu Maior que habita nela, o Reino ''dentro de vós'' de que nos falou Jesus.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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