ESPAÇO ABERTO - Exercício de cidadania
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2003
René Ruschel 
João Divino tem 13 anos incompletos e é o terceiro numa escala de 5 filhos. Nasceu, cresceu e vive na periferia da cidade - um local miserável e violento, sem infra-estrutura básica como água potável, esgoto, posto de saúde, escola e segurança. O barraco onde mora - ele, os pais e irmãos - é composto de sala, cozinha e um quarto, onde dorme o pai, a mãe e dois irmãos menores. O restante se amontoa na sala. O banheiro é um puxado nos fundos e que, por sinal, também é coletivo. A luz elétrica é fruto de uma gambiarra que os moradores engendraram para garantir o único conforto disponível. Localizado na parte baixa do bairro, quando chove desce uma enxurrada de água e lama que leva tudo o que encontra pela frente. Pela porta da sala, que dá para a rua, passa o esgoto a céu aberto.
O pai é alcoólatra e há 6 anos está desempregado. Vive de biscates. Na verdade nunca teve trabalho fixo. Durante pouco mais de 8 meses trabalhou como auxiliar de mecânica numa oficina, mas só o tempo suficiente para o nascimento de João. Depois o patrão achou que era muito caro e ele voltou a engrossar - e permanece até hoje - as estatísticas dos trabalhadores informais. Foi camelô, vigia noturno, auxiliar de pedreiro e por último, ajudante de caminhoneiro. Agora, quando a saúde permitE, sai à cata de papel e lixo reciclável. Caso contrário passa os dias assistindo televisão ou jogando sinuca no boteco a espera de um gole de cachaça.
A mãe, uma ex-doméstica, cansou de bater de porta em porta suplicando por trabalho e hoje, acompanhada pelos dois filhos mais novos, faz ponto no sinaleiro da esquina vendendo balas ou implorando uma esmola. Quando retorna para casa ao final do dia encontra a geladeira vazia, as panelas ainda sujas de vários dias e o marido bêbado e agressivo. Já perdeu a conta de quantas vezes apanhou ou do número de queixas na delegacia do bairro como vítima da violência doméstica. A única certeza é a fome.
João cresceu assistindo cenas de violência tanto nas ruas como dentro de casa. Frequentou a escola até o segundo ano do primeiro grau, que aliás, nem chegou a concluir. Aos nove anos de idade viu o primeiro homem tombar morto à sua frente numa briga de gang disputando pontos de droga. Aos onze experimentou maconha e gostou; aos doze recebeu o primeiro salário como pombo-correio do tráfico local e aos treze, como prêmio pelo bom desempenho, ganhou a função de olheiro na entrada da favela e o codinome de Joãozinho DV. Hoje seu sonho de consumo, além de roupas, carros, festas, respeito e poder é um fuzil AR-15.
Matar ou morrer. É a lei suprema da sobrevivência marginal, onde matar é a certeza do dever cumprido e morrer mão passa de um acidente de percurso. O valor da vida é proporcional ao risco. Seus encantos estão na emoção da bala perdida, no estampido que ecoa pelos ares, na sinfonia de uma rajada de tiros que corta o silêncio na mesma proporção que rasga corpos inocentes. Uma batalha travada entre a insanidade dos que não obedecem e a prepotência dos que fingem mandar.
Joãozinho DV é mera ficção. Mas se fosse você, seria diferente?
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


