Londrina, a filha de Londres, está prestes a completar 80 anos. Projetada no alto de uma colina atravessada por uma antiga picada, permite contemplar o horizonte a todo instante e faz perceber na diagonal que cruza a malha xadrez a marca primitiva gravada no chão. Um plano inicial de cidade com rigor geométrico e forte caráter.
Uma rápida caminhada pelo centro antigo revela, no entanto, uma cidade insossa. Cimentados frescos e pinturas recentes cobrem as tênues marcas de uma cidade octogenária que ainda assim procura o seu significado.
Na década de 30 o antropólogo Lévi-Strauss em suas andanças pelas cidades brasileiras comentava com espanto: "No Novo Mundo as cidades vão do viço à decrepitude sem nunca serem antigas. Jamais incitam a uma viagem fora do tempo, nem conhecem essa vida sem idade que caracterizam as mais belas cidades que chegaram a ser objeto de contemplação e de reflexão, e não mais simples instrumento de função urbana".
E prosseguia: "Enquanto a passagem dos séculos constitui uma promoção para as cidades europeias; para as americanas, a simples passagem dos anos é uma decadência. Pois não foram apenas construídas recentemente, são construídas para serem renovadas com a mesma rapidez com que foram erguidas, quer dizer, mal".
Lévi-Strauss se surpreendia com a rápida transformação das cidades, a falta de vestígios e de sedimentação. "As partes da cidade, demasiado brilhantes, demasiado novas, parecem uma feira, uma exposição internacional construída só para alguns meses. Após esse prazo, a festa termina e essas figuras definham: as fachadas descascam, a chuva e a fuligem traçam seus sulcos, o estilo fica fora de moda e a ordenação arquitetônica primitiva desaparece com as demolições que outra impaciência exige".
Muito do que Lévi-Strauss apontou pode ser considerado atual. Continuamos impacientes e ávidos pelo considerado moderno e atual. Foi assim, por exemplo, com a chegada do projeto Cidade Limpa e a substituição do piso do Calçadão. O projeto Cidade Limpa arrancou placas históricas de mais de meio século, marcas na fachada que só tempo consegue compor e expôs centenas de estruturas sem qualidade estética ou histórica. Resultou em quarteirões inteiros com fachadas coloridas do tipo Lego, de cores contrastantes que confundem o novo e o antigo com valor patrimonial.
O petit pavê de 1977 do Calçadão foi substituído com o discurso de permeabilidade e facilidade de manutenção. Basta andar pela cidade para observar a durabilidade do material considerado novo e que substituiu a pedra original de quase 40 anos.
Alguns anos atrás, na reforma da Praça Marechal Floriano, insistimos na manutenção dos bancos bola originais e do traçado de 1943. Estava em discussão a substituição do mobiliário e a construção de novas rampas laterais. A sensibilidade da administração da época permitiu com que o traçado fosse mantido e bancos bola fossem instalados. Os bancos originais, todavia, foram parar na praça central do Cemitério São Pedro e lá estão até hoje.
Assim, o anúncio de revitalização de praças do centro de Londrina traz um alento, mas também uma certa preocupação. Os intervalos de reformas de praças em Londrina têm sido cada vez menores. A substituição do mobiliário por "mais moderno" ou "falso histórico" é um risco constante.
O desconhecimento dos elementos que definem o caráter de cada espaço público é outra questão a ser levantada. Na Praça Marechal Floriano, o Monumento à Pátria localizado no seu centro é de pedra basalto de duas cores. Em todas as reformas o monumento é pintado, escondendo a textura original rosada da pedra. Entre as boas práticas consideradas pelo Patrimônio Histórico da Inglaterra (English Heritage) consta reter o mobiliário antigo que reforça o caráter local. Assim, na revitalização de praças o mote poderia ser a recuperação do mobiliário existente e o fortalecimento e recuperação dos componentes da paisagem interna e do entorno que dão significado e sentido ao local. Assim talvez possamos afirmar no próximo aniversário de Londrina: et in Arcadia ego (também estou na Arcadia) – Poussin, 1639.
HUMBERTO YAMAKI é coordenador
do Laboratório de Paisagem da
Universidade Estadual de Londrina

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