ESPAÇO ABERTO - Está de ''saco cheio''?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de outubro de 2003
Luiza Leonor Cavazotti e Silva 
Pare de trabalhar por três dias, uma semana. Qual é o problema? Você não pode fazer isso? Comerciante? Operária? Enfermeiro? Advogada? Médico, dentista, varredor de rua, jornalista, jornaleiro, cozinheira...? Mas, quem, afinal, pode se dar ao luxo de dizer, em pleno mês de outubro: ''Estou de saco cheio. Vou parar de trabalhar, vou me dar férias, agora!''
Somente quem não depende diretamente do produto que vende: o professor, que já tem seus treze meses de salário garantidos; e o aluno, quem paga a sua escola, e pela própria idade, não percebe que ele é o prejudicado.
Recuemos no tempo - a História explica as distorções: há poucas décadas os ''jogos da primavera'' animavam a cidade nesta época do ano. Aos poucos, os jogos foram ''hibernando'' e, espertamente a Oktoberfest de Santa Catarina foi substituindo a bola pela cerveja... (Oktoberfest é programa de rico, mas, propaganda também é pra rico).
Outra história: atendendo a um pedido do Papa João Paulo II, em visita ao Brasil, o governo brasileiro decretou feriado o dia da padroeira católica, Nossa Senhora Aparecida - dia 12 de outubro. Pronto! A confusão com o ''Dia da Criança'' estava feita; e este passou a ser comemorado como feriado. O professor pegou carona, e, também passou a comemorar seu dia com ''saco cheio'' (Não nos esqueçamos de que os outros profissionais comemoram seu dia trabalhando, exceto os funcionários públicos).
O que tudo isso pode significar para os nossos jovens? Para a Educação? Para o País? Que ensino é ''um saco''. Que aprender é ''um saco''. Que ensinar é ''um saco''.
O que é ''um saco'' - expressão grosseira, mas já que está aí, que fique - é o resultado do Brasil nas avaliações internacionais sobre ensino; é ''um saco'' a constatação internacional de que os jovens brasileiros não sabem interpretar o que lêem, não sabem se expressar por escrito, não sabem Matemática. Com dez anos de escola, nossos jovens sabem menos do que uma criança de primário há 30, 40 anos atrás!
E o que é pior, ao invés de procurarmos na escola o motivo do fracasso e buscarmos soluções para melhorar o ensino, ficamos arrumando justificativas para uma semana de ''saco cheio'', e colocamos a culpa do fracasso na pobreza, nas famílias ''desestruturadas'', na falta de motivação dos alunos, na violência nas escolas, na falta de respeito com o professor...
Não é demagogia dizermos que o futuro do País está na educação das crianças e dos jovens. Como é papel da Educação refletir, meditar, discutir, criticar cada fato social, vamos usar a ''semana do saco cheio'' para fazermos um pequeno exercício educacional: 800 horas letivas brasileiras comparadas aos mais de mil em tantos outros países... nosso ''saco'' de cultura, conhecimento, educação escolar... está... bem vazio...
LUIZA LEONOR CAVAZOTTI E SILVA é orientadora do Instituto de Educação Infanto Juvenil, escola fundada há 30 anos em Londrina


